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Opinião
D10S

Maurício Rands
Advogado formado pela FDR da UFPE, PhD pela Universidade Oxford
e Cleodon Valença (Bode)
Humanista

Publicado em: 30/11/2020 03:00 Atualizado em: 30/11/2020 08:33

O poeta Diego Armando Maradona perpetuou aquele lance antológico da “mão de Deus“ na Copa de 86, no México, como um troco à violência de Thatcher nas Malvinas. Um gol de mão, ainda que feito com perícia, é sempre uma violência. Mas sua genialidade preferia a beleza legítima. Por isso, alguns minutos depois, completou o troco que seu povo esperava dar na arrogância dos ingleses ocupantes do território argentino. O gol mais bonito da história de todas as copas, driblando quase todo o time inglês desde o seu campo, calou fundo na alma dos hermanos. Como a dizer aos ingleses: “As Malvinas são nossas, vocês ganharam uma pequena batalha. Nós, a guerra. Sem disparidade de armas. Onze contra onze. Povo contra povo”. Momento mágico em que se fundem esporte e destino nacional. Pleno de simbologia. Os militares planejaram recuperar as Malvinas talvez como tática para adiar o fim inexorável de seu regime atroz. O desastre até precipitou o fim da ditadura. Mas foi Diego quem lavou a alma de seu povo sem disparar um único tiro de pólvora. Com sua perna esquerda mágica e a mão do Supremo resgatou o orgulho de uma nação ferida. De lá para cá, a polarização política e as desventuras de políticas econômicas populistas afundaram ainda mais a autoestima de um povo que já foi o mais desenvolvido da América Latina. Um povo cujo libertador, San Martin, soube desde o início atrelar independência e educação de base para todos. Uma nação que teve um presidente-educador, Domingo Sarmiento, que até hoje não teve similar no vizinho e rival gigante. Os dois gols antológicos de Diego traduzem tudo isso. São a epifania de um povo que subitamente se descobre autor de proezas de que já não se acreditava capaz. Trata-se do resgate do sonho não realizado de uma pátria ferida.

O jovem pobre de Villa Fiorito virou lenda. Operou milagres dentro e fora do campo. Como o de unir o mundo do futebol, mesmo diante de rivalidades que pareciam intransponíveis. Como atestaram as homenagens prestadas pelos arquirrivais. Pela Juventus, odiada pela torcida da sua amada Napoli. Ou pelo River Plate, odiado pelo seu Boca Juniors do coração.

Os moralistas vão sempre falar da dependência química a que o destino de uma vida angustiada lhe levou. Preferimos lembrar a beleza de seus dribles, a precisão de seus chutes, a maestria de seus gols. E, fora de campo, a irreverência que enfrentava os poderosos e o senso comum. A solidariedade sincera aos injustiçados e desvalidos da sorte. O espírito militante contra as estruturas políticas e econômicas de sua América Latina tão incompetente. A alegria que irradiava e contagiava. A fidelidade a uma causa que abraçou mesmo sabendo das críticas que atrairia.

Talvez nenhum brasileiro tenha tocado tanto a alma de nosso povo, como Diego a do povo argentino. No Antiquário, na última 6ª feira, boêmios amigos, homenageando-o, lembramos o enterro de Senna como similar em comoção nacional. Para logo depois reconhecermos que, sem diminuir o amor do nosso povo ao piloto, os dois funerais tiveram significado diverso. Diego uniu todas as classes, ricos, pobres, poetas, empresários, trabalhadores, mendigos, boêmios e maconheiros. Mais do que resgate dos argentinos, Maradona é o resgate de uma América Latina que até hoje não deu certo. Por tudo isso, aquele abraço que lhe deu o papa Francisco foi o abraço que todos nós latinos gostaríamos de lhe ter dado. A comoção de todos os que desafiaram os rigores da epidemia fez de seu funeral algo transcendental. Um povo hoje tão dividido parecia único no instante de reverenciar seu filho ilustre. Talvez o epitáfio que Diego antecipou para a sua lápide sirva para toda a nação argentina: “gracias a la pelota”.

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