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Opinião
Rosilda, a empoderada

Marcelo Barros Pereira
2º filho de Rosilda
opiniao.pe@diariodepernambuco.com.br

Publicado em: 20/10/2020 03:00 Atualizado em: 20/10/2020 06:36

Membro de um comitê que definiria uma promoção, fiquei chateado quando a escolhida foi desqualificada ao se descobrir que estava grávida. Voto vencido, ao menos garanti para ela a próxima vaga. Era 1999 e a representante do RH sugeriu que minha defesa apaixonada seria por ser pai recente de duas filhas, cioso do futuro delas. De pronto respondi: “Não, nada disso! É que sou filho de uma mulher que sempre brigou pelo justo lugar das mulheres no mundo e nunca aceitou ser avaliada por critérios subjetivos ou não comparáveis”.

É dessa mulher que venho falar hoje. Muito antes da ONU publicar o seu Women’s Empowerment Principles, em 2010, ela já os praticava e os exigia para si mesma. Nascida em 1934, na pequena Paudalho, interior de Pernambuco, no início da década de 50 a adolescente resolveu romper com o futuro de poucas possibilidades, convencendo os pais a deixá-la concluir o ensino médio na capital, onde foi acolhida por uma tia. Não teve a mesma receptividade quando decidiu fazer o curso superior de Serviço Social. A família já morava pertinho do Recife, em São Lourenço da Mata e ela teve que superar as insinuações machistas de amigos e irmãos, aboletados nas mesas de cachaça que os arruinaria a todos: “Muito suspeito, tão formosa mocinha, pronta para casar, que sai cedinho todo dia e volta no último trem da noite, toda arrumadinha ainda!”

Começava a saga de Rosilda, a empoderada. Concluiu o curso em 1958, passou no primeiro concurso público federal que fez, casou-se em 1959, teve a primeira filha em 1960 e nunca deixou de trabalhar, antes ou depois, por tal motivo e sempre o fez em expediente integral. No início dos 70’s, já com 4 filhos pequenos e só uma sobrinha-filha para ajudar, iniciou o curso de Psicologia. Formada, montou clínica e passou da dupla para a tripla jornada: casa, emprego e o empreendimento, no qual por anos atendeu pequenos e grandes clientes, como Brasilit e Bandepe. Após a grande enchente de 75 o casal partiu para uma vida melhor no bairro de Boa Viagem. Mesmo quando foi mais difícil, manteve os filhos nos melhores colégios.

O rigor para que valorizassem a família, a honestidade e a boa educação norteava tudo. Quando veio a aposentadoria e os netos, a mulher que sempre combateu e venceu homens atrasados, injustiças veladas e “destinos certos”, revelou-se a mais doce, dedicada e amorosa das criaturas. Distribuiu carinho e os mais incríveis quitutes aos pequenos e também os usou, sabiamente, para costurar a permanente união do pequeno núcleo familiar em torno de si mesma.

Desde sempre, ajudou casais, parentes e desconhecidos, através de ações na Igreja, na Associação do Mal de Parkinson, doações anônimas, etc. Conhecê-la transformou todos nós em pessoas melhores. Aos 86 anos ainda frequentava academia, pilates, grupo de meditação e tinha sempre disposição para um chamego e um bom papo. Enfrentando a doença, manteve-se lúcida e participativa até o último instante.

Dona do próprio destino, decidiu matreiramente, em linha direta com o Pai, o seu próprio desfecho: esperou o último ausente, a neta primogênita, tocar o solo do Recife, para partir na ilustre companhia de N. Sr.ª da Conceição Aparecida na noite do último dia 12 de outubro. Adeus, meu amor!

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