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Opinião
Glamour e decadência

Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República. Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King's College London - KCL

Publicado em: 29/10/2020 03:00 Atualizado em: 29/10/2020 04:49

O meu primeiro contato com F. Scott Fitzgerald (1896-1940) foi por meio do cinema. Fiquei encantado com o filme O Grande Gatsby (The Great Gatsby), de 1974, adaptação do romance homônimo de 1925. O filme tem direção de Jack Clayton (1921-1995) e roteiro de Francis Ford Coppola (1939-). No elenco estão Mia Farrow, Sam Waterston, Bruce Dern, Karen Black, Scott Wilson e Lois Chiles, entre outros. E Robert Redford faz o papel de Jay Gatsby, a enigmática personagem principal da trama.

Não sei bem explicar o porquê, mas a fotografia de The Great Gatsby, o filme, sempre foi para mim a imagem da riqueza americana nos seus anos dourados. A mansão de Long Island. Um antigo caso. A mulher casada que se quer impressionar. As festas. A beleza dos convidados e muita champanhe. Uma impressão visual mesmo, sensorial, que ficou marcada no meu espírito. Os contos de Fitzgerald, à moda de The Diamond as Big as the Ritz and Other Stories (edição da Penguin Books, de 2006, que tenho agora em mãos), em que o autor “mistura inteligência e cinismo em seus retratos satíricos da movimentada Era do Jazz”, também ajudaram bastante. São quase todas estórias que nos fazem sentir o êxtase da música, das festas e da bebida e nas quais “os deuses venerados são o glamour, a riqueza e o status social”.

Mas Scott Fitzgerald também é para mim um exemplo de decadência pelo álcool e outras turbulências da vida. Membro da chamada “geração perdida”, sua estada intermitente em Paris mostra muito do que eu quero dizer. Segundo registra Jessica Powell, em Literary Paris: a Guide (The Little Bookroom, 2006), quando Fitzgerald chegou a Paris, em meados dos anos 1920, “ele já tinha composto This Side of Paradise e The Great Gatsby, e era conhecido por seu estilo de vida descontrolado e luxurioso. Ele e sua esposa, Zelda, estavam tentando ‘encontrar um novo ritmo’ para suas vidas, e Paris, com sua vibrante cena artística e seu baixo custo de vida, era uma opção atrativa para muitos americanos. ‘A França tem as duas únicas coisas para as quais nos movemos enquanto envelhecemos – inteligência e boas maneiras’, disse Scott, embora ele e Zelda – ambos grandes bebedores – geralmente exibissem pouco da segunda”.

Seja frequentando o 6º arrondissement ou como moradores da Rue de Vaugirard, nas abas do Jardim de Luxemburgo, foram tempos de “mil festas e nenhum trabalho”, nas palavras do próprio escritor. Como anota Jessica Powell, “em 1929, o alcoolismo consumia Scott Fitzgerald. No majoritariamente autobiográfico romance Tender is the Night, ele escreveu: ‘a bebida fez coisas felizes do passado contemporâneas com o presente, como se elas ainda estivessem acontecendo, e contemporâneas mesmo com o futuro, como se elas estivessem para acontecer de novo’”. Os escândalos eram cada vez piores. E Zelda, mais “fanática”. Consta que Scott certa vez apareceu bêbado para tomar chá com Edith Wharton (1862-1937). E James Joyce (1882-1941), após um encontro, teria dito: “Ele causará algo de ruim a si mesmo um dia”. O comportamento errático do casal passou a afastar até os amigos.

Cientes das pontes que haviam queimado, os Fitzgerald esqueceram Paris. Foram se tratar na Suíça, um país onde “poucas coisas começam, mas muitas coisas terminam”, também nas palavras de Scott Fitzgerald. E é ali onde se passa parte de Suave é a noite (Tender is the Night, 1934), talvez o mais tentador e ambicioso, além de autobiográfico, dos seus romances.

A vida de Scott Fitzgerald foi uma mistura superlativa de glamour e decadência, de alegria e tristeza. Morreu jovem. A bebida cobrou seu preço. Fala-se também de tuberculose. O coração estava fraco. Ataques cardíacos e desmaios se sucederam no fim dos anos 1930. Em dezembro de 1940, vivendo em Hollywood, um infarto fulminante. Tinha apenas 44 anos.

Bom, a Paris do grande escritor – e da sua companheira Zelda – não durou para sempre. Aliás, agora recordo que a minha (Paris) também não. Quando estudava/morava lá, um tio querido faleceu no Brasil. As coisas perderam a graça. E comecei a arrumar as malas para voltar à terrinha. A festa não duraria para sempre. Nenhuma festa dura, parece.

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