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Opinião
A cidade que queremos

Maurício Rands
Advogado formado pela FDR da UFPE, PhD pela Universidade Oxford

Publicado em: 26/10/2020 03:00 Atualizado em: 26/10/2020 05:46

Na era da revolução tecnológica, as cidades assumem uma relevância estratégica. Em Democracy and Prosperity (Princeton University Press, 2019), Iversen e Soskice argumentam que as cidades que desenvolverem “clusters tecnológicos” terão força política exponencial. Porque atrairão pessoas com elevada criatividade cultural, social, política e econômica. Para ambos, o adensamento, inclusive vertical, é positivo. Porque concentra moradores criativos e tecnologicamente antenados. Além disso, como argumenta Edward Glaeser (Harvard), em seu The Triumph of the Cities (Penguin, 2011), o adensamento pode produzir saldo ambiental positivo ao evitar os grandes deslocamentos de moradores que moram onde trabalham. E também ao impedir a expansão da população para áreas que poderiam permanecer verdes. Para Glaeser, as cidades podem ser os ambientes mais saudáveis e verdes. Além de cultural e economicamente os melhores lugares para se viver.

O cotejamento dessas potencialidades com o presente debate eleitoral chega a ser desalentador. Multiplicam-se promessas sem indicação da viabilidade. Como Lula e Bolsonaro bem o sabem, a transferência de renda direta aos vulneráveis é poderoso instrumento eleitoral.  E aí quase todos prometem um complemento do auxílio-emergencial. Algo positivo e necessário. Mas é preciso ir além disso. E essas propostas deveriam ser acompanhadas do exame de viabilidade. Da mudança de gestão para reduzir outras despesas e ampliar as receitas com incremento das atividades econômicas. Não com aumento de IPTU, ITBI, taxas e indústrias de multas. Esse é o caminho mais fácil. Mas que asfixia o empreendimento na cidade. E afasta-o em busca de outras praças menos onerosas e menos burocráticas. Nesse item, a cidade que precisamos deve passar por uma revisão profunda da burocracia. O cidadão usuário de um serviço tem que ser tratado como cliente. Respeitado e valorizado. Hoje, quem se dirige à prefeitura parece que está pedindo um favor. E comumente é tratado como culpado a priori.

Queremos, para isso, uma cidade com dirigentes que não se queiram perpetuar no poder. Para quem o poder não seja um fim em si. Mas sim um instrumento para desenvolvimento da comunidade. Isso reclama uma liderança madura e capaz de unir a cidade em torno de um propósito. Que aponte caminhos para o futuro. Que supere a velha prática da demonização do adverso. Que respeite a autonomia de cada setor e das diversas forças políticas. Apta a desenvolver políticas públicas de combate à pobreza e à exclusão. Não queremos uma cidade dividida.

Queremos uma cidade aberta à inovação. Onde os corredores tecnológicos possam atrair gente criativa. Em todas as atividades. Que a cidade invista na educação de suas crianças e adolescentes. Os futuros inovadores. Com escolas de mesma qualidade para ricos e pobres. Para isso, a educação reclama uma revolução. Para melhorar as instalações, os equipamentos e as metodologias pedagógicas. Mas sobretudo para ter professores valorizados. O magistério deve voltar a ser uma profissão de status elevado. Admirada, desejada e bem remunerada. Com investimentos em formação, avaliação e carreiras estruturadas. Ao nível de procuradores e auditores. Para isso, há que cortar recursos de outras secretarias e entes da administração indireta. Se o orçamento da cidade é limitado, priorize-se a educação, o mais estratégico de todos. Mas sem descurar o espaço orçamentário para a prestação de bons serviços de saúde, saneamento, meio-ambiente, segurança e cultura. Assim como em planejamento urbano, manutenção e limpeza. Esses desafios reclamam dirigentes com muita capacidade de gestão. Para cortar radicalmente despesas desnecessárias. Cancelar atividades supérfluas, cargos comissionados, contratos terceirizados hoje loteados entre os partidos, carros oficiais e outras benesses. Que saibam fazer parcerias com o setor privado, como as PPP, e que não sucumbam à corrupção.

A cidade que queremos precisa voltar a nos ofertar qualidade de vida. Não pode ser um engarrafamento perene que sufoca a produtividade. Precisa cultivar a diversidade étnica, religiosa, de orientação sexual e de gênero. Combater os preconceitos. Que não seja dividida entre uma cidade para trabalhar e outra para morar. O uso misto tem que prevalecer. As vocações naturais do Recife para os serviços e a produção de conhecimento precisam ser cultivadas. Investindo em infraestrutura de conexão, sobretudo internet, para que ricos e pobres estejam digitalmente incluídos. Bem gerida, nossa cidade poderia voltar a ser um polo de liderança regional na economia criativa, na tecnologia, na medicina, no direito, no turismo, na logística. Poderia voltar a atrair gente e empresas inovadoras se proporcionasse um bom ambiente para os negócios. Poderia vir a ser um hub de gestão. Resgatando sua vocação cosmopolita. Voltando a falar para o mundo. Concentrando gente inteligente, poderia recuperar a influência política e econômica que deixou de ter.

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