Diario de Pernambuco
Diario de Pernambuco
Digital Digital Digital Digital
Digital Digital Digital Digital
Opinião
Recife ontem e hoje: cólera e pandemia

Luzilá Gonçalves Ferreira
Membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 22/09/2020 03:00 Atualizado em: 22/09/2020 05:13

“Visitas, reuniões, exibições teatrais foram suspensas por semanas, como fora exigido. As pessoas confinadas,  proibidas de ir às compras,  as missas se tornaram raras, celebradas apenas por algum vigário renitente. Os jornais noticiavam queixas dos comerciantes, muitos decididos a fechar as portas, por falta de compradores, porque os caixeiros faltavam ao trabalho, por medo, ou porque houvessem morrido, como o saber, as famílias não ousavam comunicar a morte dos entes queridos, a maioria delas limitava-se a mandar enterrar seus mortos em Fora de Portas, transportados pelos escravos negros. Vez em quando ouvia-se ao longe um sino, tocado sabe Deus por quem, e todos se benziam. A morte rondava, a morte passara perto.”

O texto acima retirado do romance Illuminata, publicado há uns anos,  descreve os efeitos da epidemia de cólera, no Recife, na primeira metade do século 19. Por volta dos anos 40, em torno de 1841, o Conde da Boa Vista havia determinado, por lei, a construção de um cemitério público. Era preciso abolir o costume insalubre de se enterrarem os mortos nas igrejas, ou ao redor delas, quando se tratava de pessoas mais pobres. Mas só quando a cólera se instalou na cidade se começou a utilizar o Campo Santo, ainda inconcluso. Louis Léger Vauthier o idealizara e escolhera o local de sua instalação: um grande terreno vago em Santo Amaro das Salinas, entre Recife e Olinda. Mesmo assim, no começo os enterros eram feitos às pressas, sem muito acompanhamento.

Só quando o número de mortos diminuiu, e que a cólera parecia nos ter deixado definitivamente, é que se soube o tamanho aproximado da catástrofe. O Doutor Lobo Moscoso, outros médicos encarregados dos serviços do Conselho Geral de Salubridade Pública, divulgaram o número de mortos do Recife. Até então, a morte agira em Pernambuco sobretudo através das doenças poitrinárias. Estar atacado de tuberculose era a sentença de morte que não fazia diferença de idade, classe social. Mas quando os serviços de saúde conseguiram fazer o balanço da mortandade relativa ao Recife, viu´se que o número de mortos pela cólera era mais que o dobro dos mortos pela tuberculose.

Quando enfim já quase nenhuma morte por cólera se anunciou, as pessoas voltaram a circular, surpresas de terem sobrevivido. Os casamentos voltaram a se realizar, muitos com mais pompa até, do que antes, era preciso reafirmar a crença na vida. As procissões recuperaram seu fausto, os santos cercados de muito mais flores, eretos, de novo ocuparam os andores, à brisa do Recife. Na igreja de Santa Rita as missas de gratidão se sucediam, os padres eram secundados ou substituídos por seminaristas, tal o número de bênçãos alcançadas, as pessoas espantadas por terem escapado ao flagelo. Na Madre de Deus uma cerimônia suntuosa teve lugar, com muitos cânticos e rezas. Voltava-se à vida. Essa epidemia de cólera, que atingiu o Recife no século 19, se parece com o que estamos vivendo no Recife atual. E o retorno à normalidade se fará de igual modo, dentro de alguns meses,  esperemos.

Luta por representatividade: candidatas negras tentam reescrever a história
Resumo da semana: segunda onda da pandemia, drones na eleição e campanha sem aglomeração
Rhaldney Santos entrevista João Paulo (PCdoB)
Enem para todos com professor Fernandinho Beltrão
Galeria de Fotos
Grupo Diario de Pernambuco