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Opinião
Dois documentários imperdíveis

Maurício Rands
Advogado formado pela FDR da UFPE, PhD pela Universidade Oxford

Publicado em: 28/09/2020 03:00 Atualizado em: 28/09/2020 06:25

Dois documentários recentes da Netflix ajudam-nos a entender o que se está passando no mundo digital. Privacidade Hackeada e O Dilema das Redes mostram como hoje vivemos em realidades filtradas. Ficamos submetidos a conteúdos personalizados que nos são direcionados pelas plataformas gigantes da internet. Os algoritmos são por elas organizados em função dos nossos perfis psicológicos que elas descobrem a partir dos dados que capturam quando damos likes, fazemos buscas ou compartilhamos posts. Por isso, ninguém recebe as mesmas informações. Só nós próprios visualizamos o conteúdo da nossa página, que logo desaparece. Nossos dados tornam-se tesouros. Os recursos mais valorizados do planeta. Que, se não resguardados, são fontes de concentração de poder econômico e político. Por isso Google, Facebook, Twitter, Amazon e Tesla substituíram as gigantes do petróleo como as empresas de maior valor de capitalização.

No exercício desse poder fora do controle das instituições estatais, as gigantes tecnológicas abusam dos nossos dados e informações. Competem para atrair a nossa atenção. Quantos mais tempo conseguem nos reter, mais negócios e lucros publicitários elas geram. Para nos atrair por mais tempo, elas exploram o diferente e o extraordinário que confirmam nossos medos, aspirações, preconceitos e ódios. E aí ficamos agrupados em bolhas junto com os que têm perfis psicológicos afins. Isso aumenta as nossas divisões. O sonho de um mundo conectado, paradoxalmente, acaba por nos dividir. Na frase do Prof. David Carrol, autor de ação na Justiça do Reino Unido reivindicando a propriedade de seus dados pessoais em face da Cambridge Analytica: “A dependência das plataformas de tecnologia arruinando nossas democracias”.    

A solução passa por fazer as pessoas serem donas de seus dados. Isso nos recomendaria evitar responder testes de personalidade, perfis e similares. Poderíamos também evitar seguir e curtir apenas os que pensam como nós em cada tema. Algo que dificulte a construção de nossos perfis psicológicos pelas plataformas. Ao lado disso, chegam em boa hora iniciativas como a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018) e o PL 2630/2020, que visa combater a desinformação nas redes sociais. Assim como as novas concepções sobre os direitos humanos digitais. Trata-se de combinar mudanças de atitudes em nossas atividades digitais com reformas institucionais. Para que nos reapropriemos dos dados que inadvertidamente alienamos às plataformas. Urge um esforço mundial de reeducação digital. Será que precisamos passar tanto tempo consultando as telinhas? Podemos ler, conversar, estudar e trabalhar ao menos um pouquinho sem elas?

Os dois documentários deixam-nos a certeza de que não podemos ficar inertes diante das ameaças à nossa privacidade, aos nossos direitos de cidadãos e à democracia. Como disse, na “TED Conference” de abril de 2019, a jornalista do The Guardian Carole Cadwalladr (a que revelou os abusos da Cambridge Analytica e do Facebook no Brexit e na eleição de Trump, (https://www.ted.com/talks/carole_cadwalladr_facebook_s_role_in_brexit_and_the_threat_to_democracy):

“Não preciso dizer a vocês que ódio e medo estão sendo semeados on-line em todo o mundo. Não apenas na Grã-Bretanha e nos EUA, mas na França, na Hungria, no Brasil, na Birmânia e na Nova Zelândia. Sabemos que há uma onda sombria que nos conecta de modo global e se propaga por meio das plataformas de tecnologia. (…) É por isso que estou aqui: para me dirigir diretamente a vocês, os deuses do Vale do Silício: Mark Zuckerberg, Sheryl Sandberg, Larry Page, Sergey Brin, Jack Dorsey, seus funcionários e investidores também. (…) Democracia não é isto: espalhar mentiras às escuras, pagas com dinheiro ilegal, sabe Deus de onde. Isso é subversão, e vocês são cúmplices disso. (…) Vocês parecem não entender que isso é maior do que vocês. É maior do que qualquer um de nós. Não se trata de esquerda ou direita, “sair” ou “ficar”, Trump ou não. Trata-se de se é, na verdade, possível voltarmos a ter eleições livres e justas. (…) Então, minha pergunta para vocês é: “É isso o que vocês querem? É assim que querem ser lembrados pela história: como subordinados do autoritarismo que está em ascensão em todo o mundo? Vocês começaram a conectar pessoas e estão se recusando a reconhecer que essa mesma tecnologia está agora nos afastando. (…) Minha pergunta para todos os demais é: “É isso o que queremos? Deixar que eles saiam impunes e voltemos a brincar com nosso celular, enquanto caímos na obscuridade? (…) A democracia não está garantida, nem é inevitável. Temos que lutar e vencer. Não podemos deixar que essas empresas de tecnologia tenham poder irrestrito. Cabe a nós: você, eu e todos nós. Somos nós que temos que retomar o controle.”

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