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Opinião
Das viagens à primeira comarca

Vladimir Souza Carvalho
Magistrado

Publicado em: 08/08/2020 03:00 Atualizado em: 08/08/2020 04:54

De Aracaju para Dores, estrada asfaltada, sem parar para pegar passageiro algum, a viagem não se tornava cansativa. A etapa chata começava aí, com a parada de cinco minutos se transformando em trinta, e, depois, até Glória na lentidão do pare, passageiro entra, ônibus segue, na longa e reta estrada de rodagem. A viagem se tornava penosa, o ônibus se arrastando na estrada, passageiros sentados, número considerável em pé, a querer invadir o espaço de quem viajava no corredor, além do desagradável cheiro que axilas próximas e cobertas deixavam escapar.

As minhas primeiras viagens de Aracaju a Glória eram assim. O ônibus saía às 5 horas da manhã e não chegava antes das dez, só tendo de atrativo o olhar a paisagem pela janela. Ler, não se podia. Dormir não se conseguia pelo balanço do veículo nos buracos da estrada. E eu, a pensar de se tinha valido a pena o sacrifício feito de ser magistrado no interior. A tentativa de encontrar uma casa para alugar fracassou, à míngua de ofertas. Fui ficando de um canto a outro, indo e vindo, deixando o tempo, que carrega sabedoria, ditar a decisão correta.

A viagem me sufocava a ponto de me tirar o apetite para uma conversa com quem viajasse ao lado. Ingressava no veículo mudo e viajava calado. Não puxava léria nem abria espaço, sem deixar brecha para qualquer troca de palavras. Uma vez um cidadão, roupa de morador do campo, já perto de Glória, indagou se eu trabalhava por lá. Respondi sim, só com a cabeça balançando. No Banco do Brasil? Não. No Banco do Estado? Não. No Banco do Nordeste? A mesma negativa. Na Telergipe? Também não. O curioso, então, se impacientou, e jogou a pergunta chave: - Onde o senhor trabalha? Tive de abrir a boca para a riposta: - No Poder Judiciário. O vizinho deve ter se indagado que diabo era Poder Judiciário que ele, numa cidade como a de Glória, não sabia onde ficava? Não mais falou.

Quando cheguei à comarca, no cartório do 1º ofício pedi à escrivã que levasse o livro devido para a prefeitura, onde o fórum ocupava uma sala, para lavratura da ata do exercício iniciado. Me indagaram quem eu era. A resposta foi demorada. À época, o cabelo branco rareara. Hoje, quarenta e oito anos depois, além de todo branco, tornou-se escasso, o que incomoda.

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