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Opinião
Recomposição do poder político e desenvolvimento

Alexandre Rands Barros
Economista

Publicado em: 04/07/2020 03:00 Atualizado em: 04/07/2020 06:10

Os economistas têm argumentado nos últimos anos que maior disputa e diluição do poder induzem a maior competição política e levam a instituições melhores, menos extrativas e com maior propensão a impulsionar os desenvolvimentos econômico e social. Cláudio Ferraz, junto com dois colaboradores, em publicação recente de junho de 2020 no NBER Working Papers, indica que tal relação prevaleceu nos municípios brasileiros, utilizando dados de rupturas políticas promovidas pela ditadura militar em municípios no Ceará, Minas Gerais e Paraíba. Esse argumento tem sido parte da conclusão a que os economistas têm chegado, tanto teórica como empiricamente, de que a democracia promove o crescimento econômico. Daron Acemoglu, futuro Prêmio Nobel em economia, tem sido forte propagador dessa hipótese, tendo como referência principal seu artigo, junto com associados, no Journal of Political Economy em 2019.

O Brasil hoje já passa por um período de ruptura. A eleição de um populista de direita, que almeja incrementar seu poder político em detrimento da democracia e das instituições, tem permitido a ascensão de novas forças políticas no cenário nacional. O crime organizado em torno das milícias, os evangélicos fanáticos enriquecidos por achaque psicológico dos amedrontados, juntos com os corruptos de sempre, agregados em torno do chamado Centrão, hoje formam a base do poder executivo federal. Tirando a força do Centrão, que sempre esteve no poder, essa composição traz novos atores para o cenário político. A força das milícias já tem se consolidado institucionalmente a partir do aumento de controle da Polícia Federal, associado ao controle de tráfico de armas nas fronteiras e na redução da identidade de munições vendidas ao público. Matar agora deixará menos rastros na identificação de balas e armas dos disparos. O Centrão já toma postos de comandos em instituições públicas que possuem orçamentos gordos. Já podem expandir a sua velha prática que teve no Petrolão, seu auge. Os evangélicos recebem benesses na área das comunicações e seus expoentes associam-se ao Centrão nas suas ações diluídas por toda a administração federal. Vale ressaltar que a antiga classe dominante, a alta cúpula de servidores públicos (incluindo militares) e alguns grupos empresariais continuam no poder, apesar de agora dividirem-no com os novos membros da elite política nacional. Não é sem atrito essa divisão do poder, mas até agora ela tem encontrado a acomodação necessária para não implodir.

No segundo semestre, teremos eleições municipais. Essa será a oportunidade para essas novas forças políticas aprofundarem sua penetração nos diversos municípios. Nas regiões metropolitanas do Rio de Janeiro e de São Paulo, as três forças que dão suporte ao governo federal já têm presença forte. No restante do país, somente o Centrão tem boa penetração e os evangélicos já estão em forte expansão. As milícias certamente também utilizarão as eleições para se expandir politicamente, mas por precisarem caminhar pela sombra, devido à natureza de suas atividades, não têm facilidade de expansão generalizada. Mas, de qualquer forma, em vários municípios brasileiros, poderá haver maiores disputas políticas. Dentro das teses anteriormente colocadas, isso significa que é possível eclodir promoção do desenvolvimento local após as possíveis diluições de poder a serem geradas, mesmo que promovidas pela penetração de forças políticas antidemocráticas. Difícil acreditar. Provavelmente, sairemos piores dessas novas eleições nos municípios em que a base do presidente tomar o poder. No entanto, talvez saíamos em melhores condições de crescer onde as forças aliadas do presidente ameaçarem, mas não alcançarem o poder, porque, nesse caso, elas podem forçar a maior transparência e formatação institucional menos extrativa, desde que não haja uma recomposição após as eleições para compartilhamento da sangria. O que é fácil ocorrer.

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