Diario de Pernambuco
Diario de Pernambuco
Digital Digital Digital Digital
Digital Digital Digital Digital
Opinião
O cheiro do suor nas relações de homem e mulher

Leonardo Dantas Silva
Escritor e historiador

Publicado em: 02/07/2020 03:00 Atualizado em: 02/07/2020 06:22

Na primeira metade do século 19, no Recife e em outras cidades, encontramos anúncios na imprensa exaltando a beleza física das mulheres escravas, algumas delas de cabelos lisos, pele alva, corpo bem feito e características da raça branca, já revelando a mestiçagem do povo brasileiro.

Os atributos do corpo, a beleza física e outros predicados, também se faziam frequentes em tais anúncios, por vezes possuídos do toque do pecado – Ana “tinha os peitos em pé, pés pequenos, bem feita de corpo” (Diario de Pernambuco, 4.5.1839); “peitos grandes, pés e mãos pequenos”, eram os da mulata clara Virgínia (DP, 13.3.1838); “peitos escorridos e pequenos”, eram os de Maria, escrava de Francisco de Paula Freire do Recife (DP, 21.6.1830); “de peitos grandes e em pé,” era a angolana Francisca, de dezesseis anos (Diario do Rio de Janeiro, 15.4.1830); “peitos regulares e meio em pé”, eram os de Maria, de Nação Angola, acrescentando o anúncio ser “alta, cheia de corpo e cara redonda” (DP, 27.8.1835); “peitos gordos” eram os de Delfina que era “filha de Pernambuco e falava muito bem o espanhol”, cuja fuga era anunciada pelo Diario do Rio de Janeiro, de 4 de maio de 1830.

Um defeito, porém, não aparecia em tais anúncios: o cecê, a catinga, a sovaqueira, o cheiro nauseabundo dos corpos suados... Melhor dizendo cheiro de corpo, fedor de suor; cê-cê, que revelavam a ausência do banho diário, tão praticado entre os indígenas e mais tarde arraigado na nossa vida privada.

A observação é do viajante francês Louis François de Tollenare (Nantes, 1780-1853), que residiu no Recife nos anos de 1816 e 1817, nas suas anotações de viagem denominadas por Alfredo de Carvalho, Notas Dominicais (1905).

Em suas anotações, com data de 13 de julho de 1817, depois de descrever as doenças da pele, a infestação por piolhos, bichos-de-pé e outros parasitas, adiantando encontrar-se “para alugar negras e mulatas livres; mas, que são antes concubinas do que criadas”.

“Em geral, acentua o francês, o serviço de toda esta gente de cor, homens e mulheres, é desagradável por causa do cheiro nauseabundo (que provoca asco; repugnante, asqueroso) que espalham por pouco que se agitem”.

“Cumpre, entretanto, habituar-se a ele. Há pessoas que, longe de achar esse cheiro repugnante, até o sentem com prazer; são os homens que preferem as carícias das negras às das brancas.”

De gustus non disputandum – Os gostos não se discutem.

“Aliás, – confessa –, nem umas nem outras lograram de mim a menor homenagem. As primeiras têm belas formas, mas o seu fétido é um perfeito refrigerante; as segundas raramente são bonitas e em geral não têm carnação alguma”.

Os grandes olhos nos prometem vivacidade e são enganadores, porque a sua conversação é estéril, enlanguesce e resiste a todos os estimulantes; alguns gracejos sobre o amor, o casamento e a fidelidade sustentam a sua palestra por um momento, após o qual parecem esperar por um ataque sério.

Este quadro é severo; se é infiel a culpa é apenas da maneira tão reclusa de que vivem as mulheres mais amáveis, e não me ter sido possível encontra-las”

Por conta desses personagens possuidores de forte odor de suor, a pequena imprensa do século 19 passou a denominar as aglomerações e os bailes populares de suvacadas, bem de acordo com o cancioneiro popular dos nossos dias; como no baião de Antônio Barros:

Vamos lá pra ver o pagode vai ser bom
Todo mundo nu casamento da Maria
Tem um sanfoneiro o melhor da redondeza
Pra tocar mais que beleza vai amanhecer o dia
No som do zabumba, eu castigo a morena
Vai ser de fazer pena, vai ser de fazer dó
A poeira levanta apaga o candeeiro
Então eu sinto o cheiro, o cheiro de suor
Das morenas suadeiras que vão lá pro forró
Das morenas suadeiras que vão lá pro forró

 
Mas, alheio a tais sentimentos, o Diario de Pernambuco continuava oferecendo, sobretudo para os solteiros, mucamas de cama e mesa, com pendores de beleza apreciado:

Própria para tomar administrar cama e mesa de homem solteiro era aquela “mulata alva, vistosa, dentes alvos”, finalizando o anúncio: “Se algum homem solteiro que estiver em circunstâncias de precisar de uma ama de casa para todo serviço necessário, etc.” (DP, 30.1.1830).

Grande explosão atinge Beirute, capital do Líbano
Comerciantes de praias do estado protestam em frente ao Palácio
Rhaldney Santos entrevista o pré-candidato à prefeitura do Recife  Paulo Rubem
Aumenta tensão entre o STF e o Facebook por conta de ordem de exclusão de perfis
Galeria de Fotos
Grupo Diario de Pernambuco