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Opinião
A civilização

Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República. Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King's College London - KCL

Publicado em: 24/06/2020 03:00 Atualizado em: 24/06/2020 07:41

A BBC (British Broadcasting Corporation, para quem não sabe), no final dos anos 1960 e durante os 1970, produziu três séries de televisão que viraram clássicos: Civilização (Civilisation, 1969), A escalada do homem (The Ascent of Man, 1973) e A era da incerteza (The Age of Uncertainty, 1977). Essas séries buscavam, com base nas artes, na ciência e na economia/sociologia, sob a visão pessoal de luminares de cada um desses ramos do conhecimento, Kenneth Clark (1903-1983), Jacob Bronowski (1908-1974) e John Kenneth Galbraith (1908-2006), respectivamente, nos apresentar uma história da humanidade. As três séries foram transformadas em livros. E todos, séries e livros, são simplesmente obras-primas.

Saindo da adolescência, assisti às séries e li os livros por recomendação do meu pai. Aquele tipo de boa influência que não canso de agradecer. Sou um pouco disso tudo. Aproveitei a pandemia para rever as séries, numa tentativa de me distrair das imensas preocupações de hoje. E meu pai também, agora por sugestão minha, embora ele hoje mais reclame do que agradeça. Um ciclo da vida, digamos assim, ranzinza.

Aproveito aqui para fazer alguns comentários sobre a série/livro Civilização, sem me fazer de “spoiler”, evidentemente. Civilização, através dos trabalhos de gênios da pintura, da escultura, da arquitetura e da engenharia, da religião, da filosofia, da literatura e da música, e até mesmo do direito, nos mostra como o homem ocidental chegou, após a queda do Império Romano do Ocidente, percorrendo várias centenas de anos, aonde estamos hoje. Com altos e baixos, vê-se que foram vários “renascimentos”, antes e depois da era de Leonardo (1452-1519), Michelangelo (1475-1564) e Rafael (1483-1520).

Dos treze capítulos de Civilização, alguns me tocaram mais. Os dois sobre o Renascimento (Man: the Measure of All Things e The Hero as Artist) e, sobretudo, aquele sobre Roma e o Barroco (Grandeur and Obedience). Tenho um “Amor a Roma”, exacerbado pela leitura de um livro com esse título, do nosso Afonso Arinos (1905-1990), não por coincidência mais uma sugestão do meu pai. E certamente também porque Roma está na origem das duas culturas nas quais fui formado, o catolicismo e o direito.

É aqui aonde eu quero chegar, fazendo uso da série protagonizada por Kenneth Clark: somos, em conjunto e individualmente (volto às influências), o resultado da nossa civilização, que devemos, com todas as forças, preservar.

Já no primeiro capítulo da série, Clark nos mostra como escapamos “por um triz” (ele usa a expressão bíblica The Skin of our Teeth) da extinção, leia-se a civilização ocidental, após as invasões bárbaras e o avanço do islã no continente. Guardadas as devidas proporções, estamos observando algo parecido. E não estou falando só da pandemia. Refiro-me também a um novo barbarismo, ignorante, que estava tomando conta da nossa sociedade.

E, assim, rogo atenção para o discurso final do autor na série, parafraseando-o, já que diz muito do que penso sobre o que estamos vivendo e a nossa civilização. Não que eu seja um “stick in the mud”, um “conservador” ou “antiquado”, como se autodefiniu Clark. Tenho até sido tachado do oposto. Apenas também entendo que a democracia e a ordem, incluindo a jurídica, são preferíveis tanto ao caos quanto à força e que “a criação é melhor que a destruição”. Advogo “a gentileza à violência, o perdão à vingança”. Penso que o conhecimento e a arte são melhores que a ignorância e “tenho certeza de que a empatia é mais valiosa do que a ideologia”. Honestidade, creio, é obrigação. Apesar do ser humano continuar o mesmo, confio nos milagres da ciência e nas lições da nossa história. Defendo que “todos os seres vivos são nossos irmãos e irmãs”. Finalmente, acredito que fazemos parte de algo maior, que podemos chamar – e, para mim, tanto faz, contanto que a respeitemos – de natureza ou de criação divina.



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