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Opinião
Salve os esculápios

Moacir Veloso
Advogado

Publicado em: 14/05/2020 03:00 Atualizado em: 14/05/2020 06:14

Mário Sergio, 45, mora com a mãe D. Elisângela, 65, viúva, hipertensa e diabética, com mais três irmãos em uma comunidade no Recife. Em plena pandemia, ela começou a sentir forte dor de cabeça, febre e dificuldades para respirar. Sintomas que surgeriam possível infecção pelo coronavírus. Aflito, Mário pegou um Uber e levou sua mãe a um hospital público próximo da comunidade. Ao ser atendida na emergência foi encaminhada para a triagem. Após seis horas de angustiante espera, foi finalmente implementado seu prontuário. Enquanto aguardava em meio ao tumulto infernal das emergências, sem nenhum suporte, as horas foram passando e seu quadro evoluiu para uma insuficiência respiratória aguda grave. Como se vê, em pouco tempo, o quadro de D. Elisangela se agravou, ao ponto de, clinicamente, ela passar a correr sério risco de vida.

Ocorreu que o Cremepe  - Conselho Regional de Medicina de Pernambuco editou a Recomendação 5/2020, em vigor desde o dia 27/4/2020. Dentre outras providências, ela recomenda, a utilização do Escore Unificado para Priorização (EUP-UTI), de acesso a leitos de terapia intensiva (...) como meio de hierarquização dos pacientes, na ausência absoluta de leitos suficientes a demanda terapêutica. O objeto da criação destas normas é regulamentar o dilema crucial ao qual são submetidos os verdadeiros heróis dessa luta sem quartel contra a pandemia, cuja grande maioria é formada por um exército de abnegados que suporta estoicamente a pesada cruz que carregam, trabalhando diuturnamente, em condições notoriamente precárias, com um único objetivo: salvar vidas. Finalmente, D. Elisângela viu-se diante de um jovem médico que, durante a anamnese, preencheu um questionário, e determinou o seu encaminhamento para a Central de Regulação de Leitos, onde se decide quais os pacientes que ocuparão leitos, levando-se em consideração o nível de lotação.

Mas no mundo real, a realidade é bem outra. A gravíssima situação do sistema de saúde, nesta pandemia, é, ao mesmo tempo dramática e trágica, senão vejamos: D. Elisângela só veio a ser encaminhada para o outro hospital onde havia um leito disponível, depois de longas horas de  sofrimento. Quando chegou a ambulância, sua situação era crítica. Mário Sergio testemunhou durante o trajeto em direção ao outro hospital a agonia e morte de sua mãe. Posto que não se possa deixar de reconhecer a pioneira iniciativa do Cremepe, como uma ação positiva, no sentido de mitigar a responsabilidade dos médicos, na hora de decidirem quem vai ter direito à vida ou não, a história é outra. É que de há muito, nosso sistema de saúde está falido e, agora, apesar dos esforços e da ajuda das autoridades competentes, à beira de um colapso. 

Como D. Elisângela é um personagem fictício, mas que retrata o atual cenário calamitoso e macabro da luta contra o coronavírus, escapou de integrar o assombroso contingente de milhares de seres humanos que perdem a vida todos os dias nos hospitais. São três brasileiros que morrem a cada cinco minutos em hospitais públicos ou privados, atingindo a média absurda de 829 óbitos por dia, originários de uma miríade de causas de toda ordem, que vão desde a superlotação, carência de medicamentos, leitos e UTIs, eventos adversos, insuficiência de EPIs, pessoal especializado e por aí vai. Ao que tudo indica, difícil mesmo é o paciente cumprir todas as etapas, até chegar ao alcance dos anjos da guarda de plantão: Os médicos, enfermeiros, enfermeiras, técnicos e técnicas de enfermagem, maqueiros e todos aqueles cujo ofício e profissão de fé é salvar vidas. Viva a medicina.

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