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Opinião
Ricardo, o menino e o canivete

Leonardo Dantas Silva
Historiador e escritor

Publicado em: 07/05/2020 03:00 Atualizado em: 07/05/2020 04:13

"Quem morre no Recife engana a morte.
Se criei, no azul, os meus azuis, foi para
esta cidade que me ressuscita."
(Itinerário - 1975)

Para o poeta Mauro Mota, quem morre no Recife engana a morte, e assim aconteceu com Ricardo Brennand que, nos deixou na madrugada do dia 25 de abril de 2020, mas sua presença continua guiando a todos nós que fazemos parte da sua obra maior, o Instituto Ricardo Brennand.

E pensar que tudo começou com um simples canivete inglês multiuso (Joseph Rodgers Sons), que ele recebera aos dez anos e veio a inocular em si o vírus do colecionismo que o acompanhou pelo resto da vida?

O menino, que logo se tornou rapaz, formou-se em engenharia, entrou para o grupo industrial da família e veio a ser responsável, ao longo da vida, pela construção de dezoito fábricas; sem se afastar da paixão pelo colecionismo.

Ao concluir o século 20, Ricardo Coimbra de Almeida Brennand resolveu criar um espaço público onde expusesse a sua coleção de armas brancas, iniciada com aquele pequenino canivete da infância e hoje com um pouco mais de 4.500 armas brancas, uma das maiores que se tem notícia, acrescida de pinturas, esculturas, livros e curiosidades outras.

Para isso construiu uma réplica de um castelo estilo Tudor, o mesmo padrão de construção que se fez presente na Inglaterra entre 1485–1603 e até mesmo posteriormente, em pleno subúrbio do Recife, em terras do antigo Engenho São João da Várzea, e assim criou, em setembro de 2002, o seu Instituto, hoje inscrito entre os mais importantes museus da América do Sul, já registrando o número de 3.098.637 visitantes até o último mês de março.

São 77.680 metros quadrados de área, encravada entre lagos e jardins, cercado por fruteiras e da Mata Atlântica, com o seu acesso através de uma aléia de 1.200 metros de palmeiras imperiais, ostentando na sua entrada dois grandes leões em mármore, originários do Palácio Monroe do Rio de Janeiro.

No pátio interno, uma imensa réplica em carrara do David de Michelangelo (1504), com seus 7,15 metros de altura, domina o ambiente ao lado de muitas outras esculturas clássicas e modernas, como A mulher no cavalo (3,72 m2) do colombiano Fernando Botero.

No seu acervo, vinte quadros do pintor holandês Frans Post (1604-1680), o primeiro a registrar em telas a paisagem do Novo Mundo, quando de sua estada no Recife, fazendo parte da comitiva do Conde João Maurício de Nassau, entre 1637 a 1644; dois Canaletos (Antonio Canal (1697 – 1798) com cenas de Veneza (séc. 17); além de todos os grandes pintores e gravadores que retrataram o Brasil no século 19; acrescido de esculturas originais de artistas como Fernando Botero, António Frilli, Vittorio Caradossi, Auguste Rodin (inclusive O Pensador – 1,92 de altura), dentre outros.

Ao longo de todo o Instituto Ricardo Brennand, o visitante vai encontrar 248 esculturas em pedra e metal, além de exemplares em madeira e arte religiosa, assinadas por grandes mestres, todas escolhidas e adquiridas através do olhar do seu patrono.

Armas brancas não só da Europa, mas do Oriente, como as procedentes da China, Japão, Índia e Oceania, compõem as coleções do Castelo de São João. Neste edifício encontram-se reunidas e catalogadas cerca de 4.500 peças. Tudo começa com aquele pequenino canivete, que hoje se junta a um precioso acervo espadas, facas, alabardas, lanças, escudos, punhais, adagas, armaduras (para cavalos e cavaleiros), balestras, elmos, arcabuzes, espingardas, mosquetes, carabinas, pistolas de duelo; uma singular armadura para cachorro, além das espadas de cerimonial do rei Faruk I do Egito, estas últimas folheadas a ouro e cravejadas com brilhantes.

Todo este rico patrimônio encontra-se à disposição do grande público, distribuído através dos prédios do Castelo de São João (990 m2), Pinacoteca e Biblioteca (4.884 m2), Galeria de Eventos e Exposições Temporárias (1607 m2) e, a partir de 2014, da Capela de Nossa Senhora das Graças (600 m2); ocupando uma área conjunta de 8.081 metros quadrados.

Ricardo Brennand nascera em terras do município do Cabo de Santo Agostinho, em 27 de maio de 1927, na madrugada de 25 de abril de 2020, veio falecer no Hospital Português do Recife aos 92 anos, vitimado pela Covid-19; era casado com Graça Monteiro Brennand, deixa oito filhos, 19 netos e 43 bisnetos.

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