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Opinião
Receitas de escravos, em tempo da cólera morbus

Leonardo Dantas Silva
Escritor e historiador

Publicado em: 14/05/2020 03:00 Atualizado em: 14/05/2020 06:14

A quantidade de notícias falsas que nos chegam pelas redes sociais anunciando a cura, remédios milagrosos e especial tratamento para o combate da Covid 19, particularmente às “últimas descobertas” da medicina cubana, nos transportam para os anos de 1855 -1856, quando no Recife grassava a epidemia da cólera morbus.

Na época, tal e qual as redes sociais dos nossos dias, o jornal O País, em sua edição de 10 de março de 1856, propagava o boato de que o serviço funerário se tratava de uma indústria rendosa; o transporte dos ataúdes era pago aos cocheiros à razão de dez mil réis e, como ninguém se atrevia no cemitério a levantar as tampas dos caixões, estariam conduzindo pedras em lugar de defuntos. Quem tivesse casa em obras tratasse de pôr a salvo o seu material de construção por um bom preço.”

Em Pernambuco, no ano de 1856, pereceram 37.586 pessoas, das quais 3.388 no Recife, prolongando-se a epidemia até o ano 1863; em todo Nordeste foram a óbito, nesse período, 125.973 pessoas.

O pouco conhecimento científico dos meios de propagação da doença provocou inúmeras polêmicas entre médicos estabelecidos no Recife. Para alguns, como o médico Joaquim de Aquino Fonseca, a doença era transmitida pelos doentes infectados, daí a necessidade da desinfecção das mercadorias importadas e a quarentena das tripulações dos navios; para outros, porém, como o médico Carolino Francisco de Lima Santos, “O cólera asiático não é contagioso” (O País, 14 e 15, fevereiro, 1856), o pavor coletivo, sim, era a principal causa de sua expansão.

Em 18 de fevereiro de 1856, o Diario de Pernambuco informa que “um preto da Costa da África, escravo de um dos filhos do comendador Lourenço de Sá e Albuquerque, proprietário do Engenho Guararapes, havia conseguido curar doentes do mesmo engenho e imediações, acometidos pela epidemia”.

A notícia ganhou repercussão, tendo o médico Alexandre de Souza Pereira do Carmo sido enviado pelo presidente da Província, José Bento da Cunha Figueiredo, ao Guararapes e num relatório circunstanciado afirma ter comprovado a existência de alguns casos de melhora, outros de cura e um de insucesso. Em sua edição de 26 de fevereiro de 1856, o mesmo jornal publica o receituário do preto Luís, à base de limão e entrecasco da aroeira, bem como as suas prescrições para evitar o mal.

Na mesma edição, o jornal anuncia a existência de outro preto, Manuel, escravo de Gervásio Pires Ferreira II, residente na Rua da Aurora, responsável também por algumas curas e melhoras nos pacientes por ele atendidos. Em torno da figura do escravo, que o povo passou a chamar de “Dr. Manuel da Costa” (alusão a ser originário da costa da África), desenvolveu-se, no dizer de Antônio Pedro Figueiredo, responsável pela secção “A carteira” do mesmo jornal, “um completo fanatismo, uma verdadeira alucinação”. Enquanto isso, a epidemia fazia grandes baixas junto à população de cor, a ponto de um padre acusar os médicos da cidade, em sermão proferido do púlpito da igreja da Santa Cruz, de estarem “concertados para deixar que o cólera desse cabo dos negros e mulatos”.

As estatísticas, porém, não poupavam o impacto da epidemia do cólera junto à população de cor: De um total de 3.338 sepultamentos no Cemitério de Santo Amaro, vítimas da doença, no Recife, entre 29 de janeiro e 1º de maio de 1856, eram brancos 603, pardos 1.066, pretos 1.547 e 122 não identificados; representando os homens de cor 78% da totalidade dos óbitos.

No seu relatório, datado do Recife, 16 de fevereiro daquele ano, o médico Alexandre de Souza Pereira do Carmo, em original apresentado pelo pesquisador Lauro Raposo ao historiador José Antônio Gonsalves de Mello, transcreve o receituário do preto Luís do Engenho Guararapes.

Irritado com o apoio que fora dado aos pretos escravos curandeiros, o médico Joaquim de Aquino Fonseca, presidente da Comissão de Higiene, denuncia o presidente da Província, José Bento da Cunha Figueiredo, ao ministro dos Negócios de Império, que, no seu dizer, oferecera-lhes autorização para aplicar seus conhecimentos empíricos no trato da epidemia. Em sua longa defesa, publicada na edição do Diario de Pernambuco de 7 de maio de 1856, o presidente da Província, transcrevendo carta de 24 de março do mesmo ano, descreve para o leitor dos nossos dias o que fora a participação daqueles escravos: “A epidemia aumenta de furor, a população se amedronta, os médicos se alvoroçam e como que provam de uma maneira palmar a insuficiência da arte no meio do clamor tão geral e talvez descomedido. Surge a esse tempo um preto no Engenho Guararapes, curando seus parceiros. Dois dos filhos do proprietário daquele engenho, e pessoas honestas, se me apresentaram referindo as curas milagrosas do escravo, e dizendo que naquela redondeza já ninguém tinha medo do cólera”.

Instados a comprovar a eficiência dos seus tratamentos, o primeiro, Luís de Guararapes, não compareceu por falta de autorização do seu dono; o segundo, porém, Manuel, foi levado ao Arsenal da Marinha e lá o seu tratamento, aplicado em um doente, no estado adiantado da doença, não obteve sucesso.

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