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Opinião
O professor universitário hoje

José Luiz Delgado
Professor de Direito da UFPE

Publicado em: 04/05/2020 03:00 Atualizado em: 03/05/2020 21:56

As “Notas sobre o estado atual de nossas universidades”, do prof. Flávio Brayner, publicadas no último número da Revista da Academia Pernambucana de Letras, levantam questões profundas e perturbadoras a que o autor responde sempre com posições muito nítidas – que, em bom número, acompanho e aplaudo (como, por exemplo, a necessidade de distinguir saber e conhecimento, não podendo, sem o primeiro, com seu irresistível potencial crítico, existir universidade verdadeira).

Mas é simplesmente estarrecedor o quadro que ele descreve, e denuncia,  de aspecto fundamental da vida universitária – o ensino. Literalmente relegado, hoje, a absoluto segundo plano, desprezado em favor de uma “pesquisa”, vista, na prática, quase como a única tarefa realmente de mérito do docente. Não mais existem os “grandes professores” de antigamente – “homens eruditos, dedicados exclusivamente à sua ciência, portadores, além do domínio técnico e bibliográfico de suas matérias, de uma compostura moral que emprestava às suas disciplinas uma aura de dignidade e respeito”. O autor cita vários desses grandes mestres, com quem teve “a honra e a sorte de estudar”. Eu poderia citar muitos outros, também.

Foram substituídos (essa é outra tragédia que se deve à proliferação e ao culto da pós-graduação) por “pesquisadores” de olho na “produção de conhecimento”, manifestada na aferição quantitativa de artigos e “papers”. Os antigos escreviam e publicavam, anota Flávio Brayner, “segundo um plano pessoal e voluntário”, não para atender a exigências de carreira e de currículo. Escreviam por gosto, por vocação, não por carreirismo burocrático. O resultado é a espantosa distância hierárquica entre os próprios docentes – aqueles que têm títulos e publicam, e os outros, de segunda classe, que apenas dão aulas... “Quase ninguém está mais preocupado em ser um ‘bom professor’, preparar e ministrar uma ótima aula. A própria noção de aula vai perdendo seu sentido e se transformando em tediosos seminários ou simples leitura de slides. O professor preocupa-se com o financiamento da pesquisa, o próximo edital do CNPq, o relatório de atividades, a publicação de artigos em revistas indexadas, a participação no próximo congresso”.
Os professores de segunda categoria são “condenados a dar aula! Que humilhação!. A sala de aula tornou-se lugar simbolicamente desqualificado – quando possível entregue a ‘substitutos’. São raros os professores que ainda encontram prazer e interesse no ensino da graduação”.

A descrição é perfeita, tanto quanto o quadro é horripilante. A universidade pública brasileira melhorou? Quem quiser que acredite. Virou foi uma entidade nominalista, burocrática, formal, meramente quantitativa, sem nenhuma consideração dos conteúdos, ou do mérito verdadeiro. Por isto, um único reparo devo fazer, neste ponto, ao artigo de Flávio Brayner, que atribui o atual quadro trágico à meritocracia. Posso concordar em que há muita coisa contestável na ideia meritocrática,  mas essa nova prática não tem nada de meritocracia. É seu oposto. Porque o mérito real não é identificado nem exaltado por ela. Quantidade não é sinônimo de qualidade, e produção não demonstra,  por si mesma, valor. Conheço “papers” absolutamente idiotas, irrelevantes, sem nenhuma verdadeira contribuição cultural. E conheço (ainda hoje) docentes do melhor nível que quase nada produziram.

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