Diario de Pernambuco
Diario de Pernambuco
Digital Digital Digital Digital
Digital Digital Digital Digital
Opinião
O livro de Paulo Santos sobre Abreu e Lima

Maurício Rands
Advogado

Publicado em: 11/05/2020 03:00 Atualizado em: 11/05/2020 06:12

A América Latina até hoje sofre as marcas lancinantes de uma história que lhe impediu de resgatar suas potencialidades. Quando estava na OEA, andei pelo continente.Visitei as capitais, mas também a América profunda. Pude ver a mesma paisagem social aque me acostumei andando pe lo interior do Nordeste brasileiro. O desalento da falta de oportunidades. A desigualdade. A pobreza. A violência. A captura do estado por minorias. Para entender a sina do continente, um bom roteiro é a saga dos seus libertadores do jugo espanhol. San Martin, vindo do Sul, depois de varrer os colonizadores da bacia do Prata e do Chile. Chegando ao Peru, já doente, mas vitorioso. Passando o bastão a Simón Bolívar que já derrotara os espanhóis onde eles eram mais fortes. Aclamado como “O Libertador”, Bolívar e seu exército patriótico vinham incendiando os povos com o sonho de uma América que unificasse Venezuela, Nova Granada (Colômbia), Alto Peru (Bolívia), Quito e Guayaquil (Equador). A Grã-Colômbia, o projeto de uma república unitária. Um sonho de unidade que foi recusado pelos generais que ele, ao libertar cada território, designava como vice-presidentes. Como os generais Paez, na Venezuela, e Santander, em Nova Granada. Mas que logo depois se tornavam caudilhos a dividir o território em projetos localistas. Bolívar que entrou triunfalmente em Lima em 1823 e expulsou definitivamente os espanhóis ao vencer as batalhas de Junín e Ayacucho.

Paulo Santos, em romance histórico que foi um dos vencedores do concurso literário da Academia Pernambucana de Letras de 2015, reproduz com maestria aqueles 11 anos de lutas do “Exército Patriota” liderado pelo general Bolívar no início do século 19. E conta-nos detalhes da vida de um grande pernambucano hoje reconhecido como um dos heróis da independência das repúblicas que se sucederam aos espanhóis no continente.

O romance de Paulo, O General das Massas, reconstitui a trajetória de José Inácio de Abreu e Lima, ofilho do legendário Padre Roma, um dos líderes da Revolução Pernambucana de 1817. E que, muito jovem e também capturado pelos portugueses na Bahia do Conde dos Arcos, teve a desventura de assistir o fuzilamento do seu pai. Ao fugir para os Estados Unidos, acabou por se juntar ao Exército Patriota de Bolívar. Com ele pelejou em batalhas antológicas que definiram a expulsão dos espanhóis. Como as de Boyacá e de Carabobo, que libertaram a Colômbia e a Venezuela. Escalado para defender a causa em jornais europeus, chegou a polemizar com Benjamin Constant. Muitas vezes, servindo como secretário particular do Libertador. Personagem e testemunha de um processo histórico diferente da independência brasileira. Enquanto aqui engendrou-se a forma singular de um império com os filhos da família real portuguesa, na América espanhola a independência foi conquistada com o sangue do exército popular patriótico. Do qual o general Abreu e Lima foi um dos líderes, comprometido até o derradeiro momento com o projeto de unidade defendido por Bolívar. Ele que testemunhara Bolívar recusando a proposta de tornar-se rei dos territórios liberados.

Atitude idêntica à de Washington mais ao Norte. Mas que, ao verificar os conflitos pós-expulsão dos espanhóis e as tendências localistas dos novos caudilhos, terminara por se considerar monarquista. Uma monarquia que pudesse manter a unidade sonhada por Bolívar, mas que integrasse e elevasse as massas que continuaram na pobreza e exclusão mesmo depois da independência. E que abolisse a escravidão. Essa sua identidade e compromisso levou-o a escrever um livro sobre o Socialismo, marcado pela utopia de uma América socialmente mais justa.

Como nos conta Paulo Santos, o general Abreu e Lima é o personagem brasileiro de maior importância na história das Américas. Ainda pouco reconhecido até mesmo em nosso estado. Menos ainda pela historiografia nacional, que vai sendo reescrita por historiadores paulistas e mineiros supervalorizando os eventos sucedidos em seus estados. Triste é constatar que nem a fragmentação ocorrida na América espanhola nem a unidade do império brasileiro foram capazes de realizar o sonho de Bolívar e Abreu e Lima. Eles que se sacrificaram em guerras duríssimas para que nossos povos se libertassem do jugo do colonizador. E que imaginavam que bastava livrar-se da brutalidade opressora dos europeus para que as massas se emancipassem. Derrotaram um inimigo externo que parecia invencível. Mas não imaginavam que as elites caboclas criariam estados capturados que impediriam o sonho de uma América Latina integrada, próspera e socialmente justa.

Covid-19: Brasil tem novo recorde diário de mortes
04/06: Manhã na Clube com Rhaldney Santos
Destaques do dia: Indiciamento por morte de criança, coronavírus reativado e tataravó recuperada
Brasil: produção industrial despenca
Galeria de Fotos
Grupo Diario de Pernambuco