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Opinião
O impacto da Covid-19 na cidade contemporânea

Zeca Brandão
Arquiteto e urbanista, PhD pela Architectural Association School of London e professor associado da UFPE

Publicado em: 11/05/2020 03:00 Atualizado em: 11/05/2020 06:10

Apesar de estarmos vivendo um momento de muitas incertezas, há um consenso entre todos os terráqueos: não seremos mais os mesmos após essa pandemia. Profissionais de todas as áreas têm refletido sobre isso e são unânimes em afirmar que o mundo será outro em termos sociais, econômicos, políticos e culturais. Considerando que esses fatores interagem intensamente nas estruturas urbanas, a transformação das cidades será inevitável. De fato, a história do urbanismo mostra que epidemias e guerras são os acontecimentos que mais modificam os paradigmas da disciplina.

No Brasil, por exemplo, as grandes reformas urbanas realizadas no início do século 20 transformaram radicalmente as principais capitais do país. Cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Recife tiveram as suas áreas centrais demolidas, para depois serem reconstruídas de acordo com um novo modelo urbanístico. Além da clara intenção política de aparentar desenvolvimento, o chamado Urbanismo Higienista (ou Sanitarista) tinha como propósito combater uma série de doenças epidêmicas, como a febre amarela, a varíola e a peste bubônica.

Na Europa, por sua vez, várias cidades importantes, como Londres, Berlim e Rotterdam, também tiveram seus centros urbanos destruídos durante a Segunda Guerra Mundial. A urgente demanda de reconstrução dessas cidades as transformaram em verdadeiros laboratórios vivos e um novo paradigma urbanístico, que até então estava presente apenas no universo acadêmico, veio à tona. O Urbanismo Moderno (ou Racionalista), como passou a ser conhecido, rejeitava o caráter historicista da cidade tradicional e propunha uma cidade racional e progressista, em busca de uma sociedade mais igualitária e uma estética mais coerente com a tecnologia do seu tempo.

Tanto o primeiro modelo, quanto o segundo, trouxeram uma série de melhorias para a população. Entretanto, ambos ocasionaram problemas graves a longo prazo. As reformas urbanas, a pretexto de sanear as cidades, demoliram grande parte dos cortiços onde viviam os mais pobres. A decorrente valorização imobiliária da região expulsou essas pessoas para periferias desprovidas de infraestrutura urbana, o que fez muitos optarem por permanecer nas áreas centrais, mesmo que em condições informais e extremamente precárias. Sugiram assim as primeiras favelas brasileiras, que até hoje se apresentam como um dos maiores problemas urbanos do país. O Urbanismo Moderno, por outro lado, era um modelo rodoviarista, com ocupação territorial dispersa e edifícios desconectados do espaço público. Concebida com base no uso do automóvel, a nova cidade espalhou-se e transformou-se numa grande plataforma de fluxos, levando as pessoas a conviverem mais no interior das edificações. A escala do pedestre se perdeu e a dinâmica do espaço público praticamente desapareceu.

A partir dos anos 60, a cidade modernista passou a ser fortemente criticada, surgindo, nos anos 80, um novo paradigma urbanístico que vigora até os dias de hoje.  Esse modelo, batizado de Novo Urbanismo, propõe uma cidade compacta, com um amplo sistema de transporte de massa e edificações integradas ao espaço urbano. Fundamentado no conceito de vitalidade urbana, o modelo estimula as pessoas a se apropriarem dos espaços públicos e interagirem de forma mais diversificada possível. Considerando que esses princípios conflitam com o necessário distanciamento social proposto no combate à Covid-19, cabe perguntar: qual será o impacto pós-pandêmico no atual modelo urbanístico? Será possível ajustá-lo à nova realidade ou precisaremos substituí-lo? Seja qual for a resposta, temos que estar atentos para não retrocedermos à ideia de uma cidade excludente, caracterizada pelo transporte individual e pelo isolamento social dos seus habitantes.

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