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Opinião
O Brasil na cena mundial da pandemia

Maurício Rands
Advogado

Publicado em: 04/05/2020 03:00 Atualizado em: 03/05/2020 21:56

EUA (com 67.444 óbitos), Itália (28.710), Espanha (25.100), França (24.760) e Reino Unido (28.131) atingiram o pico de contágio e já estão com mortes em declínio. Já planejam e executam a Fase 2, a retomada das atividades. Em reabertura diferenciada. Que, lógico, é complexa e arriscada. No Brasil, ainda não chegamos ao pico, mas já nos tornamos um dos epicentros da pandemia. Mais de 400 mortes diárias, superadas apenas pelos EUA. As próximas semanas serão pesadas. Sobretudo porque estamos mal no filme. Nosso presidente está na lista dos líderes mundiais que não perceberam a gravidade da pandemia. À má imagem de que já desfrutava o país, entre outros motivos, pela incapacidade de preservação da floresta amazônica ou pelo descaso com os indígenas, soma-se agora a condução pouco responsável na crise.

Helio Schwartsman (FSP, 1º/5) apontou três fracassos do Brasil na coronacrise: i) na preparação; ii) na testagem para identificar os infectados e eliminar cadeias de contágio; e, iii) na contagem das vítimas e em seu sepultamento com dignidade. Mas há muitos outros fracassos. Estamos falhando no planejamento da Fase 2 da crise, a do desconfinamento. O país até hoje não tem uma estratégia de retomada a partir de diagnósticos por regiões e atividades, para reaberturas parciais e diferenciadas. Falhamos também no dever de bem informar a população, com apagão de dados e subnotificação. O ministro da Saúde confessa-se desinformado (‘a nação está navegando às cegas’). Além disso, o poder público deixou de negociar com a indústria ociosa a conversão de suas linhas para a produção emergencial de máscaras e respiradores. Falhamos no apoio aos profissionais de saúde, sem fornecer-lhes EPI. Perdemos tempo somando boletins da OMS e das secretarias de Saúde anunciados com habilidade pelo então ministro Mandetta. Ele que não apoiou as secretarias estaduais e municipais de Saúde com ações para suprimento de testes, leitos, respiradores e EPIs.

Estranho país que elege um super-herói que se limitou a pedir o óbvio. Que ficássemos em casa. Grito de guerra adotado com estridência por abastados a partir do conforto de seus apartamentos, sentindo-se iluminados a ‘esclarecer’ os que não têm como ficar em casa. O Brasil fracassou mesmo quando adotou medidas corretas. Por não executá-las com eficiência e brevidade. Como testemunham as filas na CEF para saques do auxílio-emergencial de R$ 600,00.

O contraste é grande com países que se estão saindo bem no manejo da crise. Tome- se o caso de Portugal. Que agiu rápido e adiantou-se ao pico fazendo testes massivos desde o início. Inclusive fabricando kits de testes PCR para detecção do coronavírus. Antecipou-se na decretação do estado de alarme quando tinha apenas 112 casos e nenhuma morte, em 13 de março. O país, com 25 mil casos e 1.023 mortos, já está organizando o desconfinamento em três etapas: agora (05/5), a 2ª em 18/5 e a 3ª em 1º/06.

A Alemanha é outro caso que realça nosso fracasso. Com população superior em mais de 20 milhões, registra apenas 25% do número de mortes dos seus vizinhos. Angela Merkel reagiu com equilíbrio e se articulou com os demais partidos e com os governadores dos 16 estados. Forjou um consenso suprapartidário e reconheceu desde o início a gravidade da pandemia. A Alemanha antecipou-se na testagem baseada em método original criado em janeiro e numa rede de 200 laboratórios. Atualmente o país realiza 350 mil testes por semana.

Busca rastrear cada cadeia de infecção, com a meta de fazer 4,5 milhões de testes por semana. As autoridades locais se anteciparam em fechar espaços públicos e rastrear os infectados nos primeiros surtos na Bavária e no Reno. Bilhões de euros foram destinados pelo governo em empréstimos-ponte para empresas e autônomos. Bem como para apoiar desempregados e completar a renda de quem teve salário reduzido.

Esse tipo de cotejo, todavia, perde para a própria exposição das nossas cicatrizes sociais. As áreas pobres do Rio e de SP chegam a ter taxa de letalidade dez vez superior à dos bairros ricos (O Globo, 3/5). A crise mata mais pobres, negros, migrantes e favelados. Expõe as vísceras de um Brasil desassistido, que mora amontoado, sem saneamento e sem saúde.

Sem acesso a educação boa, que padece nas filas. Aliás, falando de filas, não chegou a hora de instituir uma fila única para os pacientes da Covid-19 em hospitais públicos e privados?

Esse nosso maior fracasso, a tragédia social, foi escancarado pela coronacrise. Que sirva de vetor para mudanças de atitudes. De todos, não apenas de políticos e empresários. Culpar apenas o presidente é eximir-se da própria responsabilidade.

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