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Opinião
Do cigarro, do câncer e do medo

Vladimir Souza Carvalho
Magistrado

Publicado em: 09/05/2020 03:00 Atualizado em: 09/05/2020 07:03

Depois de vinte anos na condição de fumante, com algumas teimosas e frustradas interrupções, larguei, enfim, o vício. Sofri de uma paciência sem limites, o cigarro me tirando o apetite, a vontade só de tomar um cafezinho para poder fumar, o hábito de, no momento em que o feito estava pronto para a sentença, gastar um bocado de cigarro na leitura de todo o processo, na redação do decisório, a partir do relatório, até a conclusão, e, ainda, passar para a máquina de datilografia, o cinzeiro se enchendo de pontas de cigarro, e, eu cada vez mais magro, a calça querendo descer, a alimentação se tornando um momento de suplício, pela falta de apetite.

Resolvi encerrar a carreira de fumante, empurrado pelo quadro que enfrentava, senão morria com o cigarro na boca. Comprei uma carteira e fiquei com ela na mão sem abri-la, a desafiá-la para um duelo, vamos ver quem é mais forte. Os cinzeiros permaneceram vazios, o primeiro dia, em um domingo, passando, o segundo, o terceiro, sem acender nenhum cigarro, e, ainda, sem abrir mão do cafezinho, que era uma forma de tornar o desafio mais autêntico, até que chegou a primeira audiência, a ouvida da vítima, uma mulher que tinha apanhado do marido.

Foi aí que surgiu o primeiro e inesquecível empeço. Não conseguia traduzir para a escrevente as respostas da vítima. A mulher repetia e, no azo, imediatamente seguinte, de nada me lembrava. E agora? O bom anjo de guarda me apontou a solução: anotar as palavras chaves, ditando, em seguida, com os detalhes, a escrevente. Ufa! As declarações assim se procederam, e, a partir de certo momento, foram rareando, porque o motor do carro pegava e se equilibrava. Nas audiências seguintes, em datas posteriores, o obstáculo inicial não deu as caras. Liberdade total.

Os dias, as semanas, os meses, os anos, tudo se passou, sem que o cigarro tivesse deixado um milímetro de saudade. Aliás, o que ficou foi o irreparável arrependimento de um dia ter aprendido a fumar, pecado dos doze anos, que só aos trinta e dois, consegui a carta de alforria. Hoje, a notícia de um amigo com câncer no pulmão, provocado pelo cigarro, me abala. O receio se torna nuvem escura, a sobrevoar o meu céu, como a frisar que, lamentavelmente, também posso passar por tal situação. Por alguns longos instantes, mudo de cor e permaneço calado.

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