Diario de Pernambuco
Diario de Pernambuco
Digital Digital Digital Digital
Digital Digital Digital Digital
Opinião
Da manga pêca, da boiada e do menino de ontem

Vladimir Souza Carvalho
Magistrado

Publicado em: 16/05/2020 03:00 Atualizado em: 16/05/2020 08:28

Nasci em casa de quintal grande. E, na sua primeira parte, três mangueiras fincadas. Foi aí e assim que aprendi a transformar a manga em bois. A manga, evidentemente, era a pêca – expressão a designar as que caiam antes de amadurecerem, desde o mais diminuto tamanho. (Não encontrei o termo no dicionário. Toquei o circunflexo para evitar ser confundida com peca do verbo pecar). Contudo, só utilizávamos as que já se apresentavam com certo tamanho. Enfiávamos quatro palitos de fósforo, como se fossem as quatro patas, uma, duas, e etc., para mantê-las erguidas e equilibradas, e tínhamos uma boiada ao nosso dispor. O chão, embaixo das mangueiras, delas ficava cheio. Quando a brincadeira não se tornava mais atraente, era fácil deixar tudo ali. Nada pesava no bolso. A manga era da mangueira e em seu redor ficava.

A brincadeira se limitava ao quintal de minha casa, bastando ter uma mangueira, no final do ano, parindo seus frutos, dos quais, os pêcos sacramentavam a andança finda. Não tínhamos recursos financeiros para adquirir brinquedos de fábrica, além do que, nessa época, nem sabíamos onde podiam ser encontrados, nem recursos financeiros eram disponíveis. A imaginação de gerações anteriores transformou a manga pêca em boi. A minha se encarregou de aproveitar a paisagem da época, ou o alimento já mastigado. Nada inventamos.

De outras brincadeiras, esqueci, como a de fazer um chapéu ou um barco de uma folha de papel, tarefa que até algum tempo atrás me era tão simples. A da manga, não, no que invoco ser fácil enfiar quatro palitos numa manga que se desgrudou do seu talo antes do tempo. Dir-se-ia fruto de um aborto, o feto ainda não completo para impulsionar, naturalmente, o seu nascimento.

Depois, por onde passei, pelo sítio do meu avô, rapidamente, ou por outros quintais com mangueiras, a atenção sempre me levou a olhar o chão ao redor, a me lembrar das mangas pêcas e da sua metamorfose em bois. Todavia, não senti mais vontade de me sentar para espetar os frutos caídos. O menino, que assim brincou, tinha ficado para trás, se perdendo na curva do tempo, sem mais dar notícia e sem ser visto. O que ficou, avançando nos caminhos da idade, se distanciou cada vez do menino de ontem.

Covid-19: Brasil tem novo recorde diário de mortes
04/06: Manhã na Clube com Rhaldney Santos
Destaques do dia: Indiciamento por morte de criança, coronavírus reativado e tataravó recuperada
Brasil: produção industrial despenca
Galeria de Fotos
Grupo Diario de Pernambuco