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Opinião
Coronavírus em Olinda: a invisível ameaça aos bens imateriais

Juliana Barreto
Arquiteta e urbanista, professora do Centro Universitário UNIFBV
juliana.barreto@unifbv.edu.br

Publicado em: 04/05/2020 03:00 Atualizado em: 04/05/2020 06:44

Todo mundo conhece a tapioca de Olinda. O carnaval e suas agremiações. As procissões. Existem ainda aquelas expressões culturais menos divulgadas, como a tradicional serenata pelas ladeiras históricas e mesmo os maracatus e folguedos. Mas, o que poderia ter em comum entre esses elementos? A resposta é que todos satisfazem a qualidades imateriais associadas à preservação de Olinda, pelo caráter único do sítio histórico, inclusive sob a disputada alcunha de Patrimônio Cultural da Humanidade, conferida pela Unesco, em 1982. A tudo isso também se soma a condição habitacional do lugar, cuja permanência de bravos moradores, alguns dos quais enraizados há décadas, sobrevivem como memória viva e incondicional da preservação. Embora, é fato, não se perceba o devido cuidado municipal ao uso residencial, mas o tecido social remanescente e que luta pela qualidade de vida foi o mesmo que escreveu a história da preservação, organizado em uma associação de moradores, a Sodeca. Deles vem o tradicional costume das cadeiras nas calçadas, que em muito reflete o tão propalado espírito de lugar, a ser conservado.

Bem, todos esses predicados de Olinda assumem uma razão especial nas últimas semanas: as ameaças em curso, decorrentes do novo coronavírus, cujo grande meio de combate têm sido as medidas de distanciamento social. O difícil confinamento, pelo qual boa parte da população tem passado, necessário e defendido pelas autoridades sanitárias, põe em risco a continuidade dessas manifestações, que, pela sua natureza, são aglomeradas e desveladas em espaços públicos. Assim como o casario, a paisagem bucólica, a topografia, a vegetação e a relação com o mar, enquanto palco de memoráveis fatos históricos, o sítio de Olinda foi dado à preservação pela genuína presença das formas de expressão e manifestações artísticas e culturais, sagradas e profanas, que se misturam e se confundem na paisagem cultural e dela é indissociável. Não se pode pensar em Olinda apenas como o patrimônio de pedra e cal; mas aquele das matizes imateriais que lhe conferem singularidade. O risco que se descortina com o novo vírus em ascensão, para além da legítima qualidade de vida dos cidadãos, é a fragilização da permanência desse importante legado cultural. Põe-nos em alerta a situação vulnerável de seus protagonistas, aqueles que detém o saber tradicional, a história e os ritos, e que carecem da paisagem como palco para a integridade cultural.

Essa breve reflexão tem o intuito de, para além de reforçar o olhar acerca da sua importância, chamar atenção das autoridades patrimoniais para o desenvolvimento de um plano de salvaguarda que considere a futura retomada dos bens imateriais, em sua essência histórica e cultural, sobretudo com a proteção do seu elemento humano. O apoio irrestrito a esses grupos deve ser ação premente e incontornável, a ser enfrentada no cenário durante e pós-pandemia. Só então, Olinda e seu sítio histórico, seus habitantes e as formas de expressão, poderão cuidadosamente retomar seu lugar, literalmente, ao sol.


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