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Opinião
Confinamento

Luzilá Gonçalves Ferreira
Membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 05/05/2020 03:00 Atualizado em: 05/05/2020 05:31

Meu amigo George só sai de casa para umas compras de frutas e verduras, na esquina. Dia sim dia não, leva a cachorrinha Carmelita, a um necessário passeio. No resto do tempo, prepara aulas que ministrará algum dia,  escolhe na biblioteca algum livro que nunca teve tempo de ler. E aguarda.  Já são quarenta e cinco dias que dura essa prisão domiciliar, como lembra outro amigo, Zé Paulo. Prisão que parece destinada a durar, enquanto nas altas esferas do país se discutem questões que o bom senso (lembro Zé Paulo, outra vez, em pertinente artigo na Folha) deveria deixar para outra ocasião, em que implicações políticas, intrigas, vaidades, o descaso, fazem esquecer a miséria, a fome, o desespero, a impotência dos que não podem pular fora do barco. Nesta semana, um comentarista da Globo News relatou experiência de visita a uma favela em São Paulo. Domingo de tarde, o pessoal bebendo, as donas de casa nas calçadas, os meninos correndo na rua. Conversando com um senhor numa mesa de bar, ele tentou falar sobre confinamento. E ouviu: “Confinamento é pros bacanas, moço. Aqui a gente continua a vida”.

A vida continua. Enquanto escrevo passa uma camionete, anunciando 30 ovos por dez reais, vendedor e motorista sem máscaras. Começou a chover. No telhado da casa ao lado  um passarinho se espoja, tentando evitar a chuva que continua caindo. Ele não precisa de nós. Como George, eu volto a minhas leituras. Tinha procurado nas estantes Aqui deveria ter havido rosas, um belo titulo para o belo livro de Jean Peter Jakobsen, aquele de quem Rainer Maria Rilke dissera ser um dos grandes. Não achei o livro mas certamente foi melhor assim: como reler sem emoção a novela A peste em Bérgamo? Mas a poesia sempre dá respostas. E encontro em Liberdade vide versos, de nosso Francisco José Trindade Barreto (Chicão): “Saber a dor é saber, sobretudo a esperança / de uma vida maior em construção, /É saber a inverdade dos caminhos/ Seguros, certos, prontos, apontados/ Que nos farão seguir distanciados/ desta única passagem verdadeira/ entre o DEVER e o HAVER de nossa vida: Nossa própria existência passageira./ A existência  que tens e que tu és.”

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