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Opinião
Centenário do papa João Paulo II

Antônio Campos
Escritor, membro da Academia Pernambucana de Letras e presidente da Fundação Joaquim Nabuco

Publicado em: 21/05/2020 05:30 Atualizado em:

Em 18 de maio, o mundo católico celebrou a passagem do centenário do papa João Paulo II. Dirijo-me a todos que professam a fé inabalável na sagrada religião cristã, saudando esta data que tem múltiplos significados, especialmente nesta hora agônica emque a humanidade vive um isolamento social inimaginável, com milhares de perdas humanas, num tempo como o nosso, paradoxalmente, de tantos avanços científicos e tecnológicos.

Esse centenário ocorre quando mais precisamos daqueles que, como o santo aniversariante, junto ao poder que nunca falha, do Divino Espírito Santo, do Senhor Deus da Misericórdia, podem interceder para que essa grande dor seja em definitivo extinta, nesta hora de tantas af lições, perdas e incertezas; de tanta dor nos hospitais e em locais onde inexistem condições mínimas de atendimento médico, esses moradores sem teto e sem emprego, para que a bondade de Deus caia sobre as suas criaturas, filhos e filhas do seu rebanho.

Sabemos todos que o olhar e o poder de Deus se fizeram visíveis para todos nós no papa João Paulo II. Ele tinha o dom da Santidade, a Santidade de quem vive em comunhão com Deus.

Em sua casa na Polônia, há um relógio de parede que parou no momento que ele faleceu. Este centenário reafirma não só o nosso profundo carinho por esse vulto que deixou uma marca indelével, singularíssima, na humanidade católica, mas a certeza de que ele, onde está, ouvindo as nossas preces e o fervor da nossas orações, intercederá por todos.

Viajou pelo mundo em 104 grandes viagens pastorais e proclamou o Evangelho em todas partes, cumprindo assim sua obrigação de defender o bem, de defendera Cristo. Por onde passava, católicos de países vizinhos iam ouvir as suas pregações.

Lembro-me de sua passagem pastoral pelo Recife, em 1980, quando o avistei na frente do Palácio dos Manguinhos. Percorreu 24 quilômetros, do Aeroporto Militar do Ibura, hoje Base Aérea do Jordão, na Zona Sul do Recife, até o Palácio dos Manguinhos, na Avenida Rui Barbosa, no bairro das Graças, na Zona Norte da capital pernambucana.

Durante todo esse percurso a multidão queria se aproximar dele. Pernambuco inteiro e outras capitais participaram dessa romaria cristã jamais vista na capital, mais de 600 mil pessoas.

Nem durante o histórico Congresso Nacional Eucarístico do Recife, em 1939, que chegou a reunir católicos de todo Brasil, foi vista uma multidão como a que foi registrada pela imprensa pernambucana durante a visita do papa. Não é exagero dizer que a passagem do pontífice pelo Recife, foi uma das maiores movimentações populares já registradas no país e a maior vivenciada entre nós. Eu menino, estudante secundário, quando, no meio da multidão que esperava o pontífice aparecer na sacada do Palácio dos Manguinhos, onde ficou hospedado, para nos dar a sua bênção. A impressão que eu tinha dele, naquela idade, era que João Paulo II, de tão amorosamente bondoso e carismático, era deste mundo, sem ser deste mundo. É a impressão que guardo do grande líder e Pastor da Igreja, para sempre. Seu rosto nunca saiu de minha memória.

Ficou na memória de todos o abraço, carinhoso, que ele deu no arcebispo dom Helder Camara.

O desejo do papa, na sua peregrinação pelo mundo, era conscientizar sobre a necessidade de promover uma cultura da solidariedade internacional, que constitui uma dimensão essencial do bem comum da comunidade mundial.

Quando o cardeal Wojtyla foi eleito sucessor de São Pedro em 16 de outubro de 1978, a Igreja estava em uma situação desesperada. Mas ele cumpriu a missão, entre outras, de consolidar de forma madura o que estava sendo preparado durante muito tempo. Nesse sentido, foi um iluminado.

Em 14 encíclicas, voltou a expor completamente a fé da Igreja e sua doutrina humana.

Em seu último livro, Memória e Identidade, publicado na véspera de sua morte, ele resumiu uma vez mais a mensagem da Divina Misericórdia. Escreveu que “O mal não obterá a vitória final. O mistério pascal confirma que o bem prevalecerá, que a vida triunfará sobre a morte e que o amor triunfará sobre o ódio».

Em tudo o que escreveu, o pontífice revelava o cuidado pela força da palavra, que ele, na juventude, pobre operário de uma fábrica, sabia cultivar como amante da Literatura, autor de poemas épicos e leitor dos clássicos do seu país, a Polônia.

Cem anos após seu nascimento, seu legado é gigantesco. Não devemos esquecer que essa visita, tão marcante no calendário católico da família pernambucana, completa exatos 40 anos, em 2020. Um motivo para celebrações.

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