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Opinião
No tempo do Cólera Morbus

Leonardo Dantas Silva
Escritor e historiador

Publicado em: 02/04/2020 03:00 Atualizado em: 02/04/2020 00:21

Nesses tempos de pandemia, com o coronavírus obrigando a todos nós ao regime de prisão domiciliar severa, nos levando a desconfiar de todos e de tudo que gravita em torno de nós, a leitura de fatos passados nos leva a meditar sobre os tempos terríveis, vividos pelo Recife, quando da epidemia do Cólera Morbus no início da segunda metade do século 19.

Desde 1849 até então, haviam sido registrados onze surtos epidêmicos na cidade do Recife, sendo os mais graves os de febre amarela (de 1849 a 1852), culminando com a epidemia do Cólera Morbus anos depois.

Segundo Pereira da Costa, “a epidemia em seu furor não poupou quase habitante algum desta cidade. Viam-se fechadas as lojas de ruas e distritos inteiros. Os sinos não deixavam de dobrar anunciando ao povo aterrado o falecimento ou o estado mórbido dos habitantes. Os médicos, exaustos de forças, não chegavam para os doentes. De noite, por todas as ruas se encontravam ricos e pobres: transluzia em todos os semblantes a incerteza do futuro e o horror do presente.  (F.A. Pereira da Costa, in Anais Pernambucanos v.10, p.44).

Trazida da cidade do Porto (Portugal) para o Brasil, através dos passageiros da barca Defensora, que em maio de 1855 aportou em Belém do Pará, a epidemia do cólera logo se espalhou para outras províncias.

Em dezembro daquele ano, através da fronteira com Alagoas, o vibrião atinge a vila da Papacaça (Bom Conselho), ingressando assim no território pernambucano. Com poucos meses, o cólera já ceifava vidas em Águas Belas, Buíque, São Bento do Una e Canhotinho, sendo registrados casos, também, em Tacaratu, Flores, Sertânia e Alagoa do Monteiro, na Paraíba.

Na Zona da Mata, o vibrião faz sua primeira vítima no engenho Cacimbas, município da Vitória de Santo Antão, que num único dia chegou a sepultar 120 vítimas, “havendo quem contasse mais de 300 cadáveres espalhados” no cemitério público.

Da Vitória para o Recife foi só questão de dias, começando o vibrião a fazer suas vítimas no bairro de São José (Diario de Pernambuco, 31.1.1856), passando para o de Santo Antônio e o da Boa Vista, chegando ao clímax em março quando, num único dia, foram sepultados 133 cadáveres no cemitério público de Santo Amaro. Em maio, o número de óbitos já alcançava 3.338, para uma população de 60 mil habitantes no Recife; no restante da província, as vítimas do cólera já somavam 32.586 mortos oficiais.

O pouco conhecimento científico dos meios de propagação do cólera, provocou inúmeras polêmicas entre médicos estabelecidos no Recife. Para alguns, como o médico Joaquim de Aquino Fonseca, a doença era transmitida pelos doentes infectados, daí a necessidade da desinfecção das mercadorias importadas e a quarentena das tripulações dos navios; para outros, porém, como o médico Carolino Francisco de Lima Santos, “o cólera asiático não é contagioso” (O País, 14 e 15, fevereiro, 1856), o pavor coletivo, sim, era a principal causa de sua expansão.

Procurando salvar suas vidas, num tempo em que não existiam antibióticos, parte da população passou a descrer da medicina alopática e foi procurar refúgio nos ensinamentos da homeopatia. Assim é que Félix Cavalcanti de Albuquerque Mello (1821-1901), em suas Memórias de um Cavalcanti (Recife: Editora Massangana, 1989) recomenda, como remédio para o cólera, a ingestão de aguardente com sal aos primeiros sintomas do mal, segundo prescrição do médico Olegário Ludgero Sabino Pinho, à época presidente da Sociedade Homeopática do Recife. Recomendava, ainda, o “Velho Félix”, “o espírito do cânfora aplicado ao mais leve indício suspende qualquer invasão do cólera”.

E assim foram surgindo receitas das mais diversas, no âmbito de uma comunidades em pânico que só desejava, como nos dias de hoje, escapar com vida de tal epidemia.

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