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Opinião
Menos polarização?

Maurício Rands
Advogado formado pela FDR da UFPE, PhD pela Universidade Oxford

Publicado em: 06/04/2020 03:00 Atualizado em: 06/04/2020 07:21

É cedo para arriscar palpites sobre que país vai emergir da coronacrise. Mas ao menos algumas necessidades estão ficando claras. Uma delas, a de superar a polarização. Como lembrou Obama em vídeo que há pouco viralizou, a ignorância não é boa em atividade alguma. Muito menos na esfera pública. A polarização é campo fértil para a ignorância. O comportamento de manada, o ódio nas bolhas das redes sociais, a propensão às fake news, tudo isso alimenta a polarização. Que dela se retroalimenta.

Ocorre que, subitamente, a ameaça de morte e desemprego reanima a busca pelos dados confiáveis. Informados pela ciência e pela técnica. Mesmo numa crise em que as emoções estão à flor da pele. Porque disso dependerá a vida. As pessoas tornam-se mais solidárias, ao menos na retórica, porque fica evidente que ninguém se basta. Aumenta a confiança no jornalismo profissional de qualidade, cuja audiência cresce exponencialmente. Especialistas são mais escutados do que certos dirigentes políticos que mal disfarçam estar fazendo disputa política em plena pandemia.

Esta mudança de humor pode explicar por que, na reação à pandemia, governantes que apostaram na união nacional e na ciência aumentaram seus índices de popularidade. Casos de Boris Johnson, Macron e Merkel. Até Trump, que começou mentindo e retardando a preparação para enfrentar a Covid-19, recuperou um pouco da popularidade assim que convocou um esforço nacional. Segundo a YouGov, sua gestão da crise passou de 56% de desaprovação há duas semanas, para 46% depois da inflexão. Os que insistiram na polarização perderam popularidade. Casos de Bolsonaro e Obrador.

Não se pode afirmar que o cenário pós-crise sepultará a atual polarização entre o Bolsonarismo e o Lulopetismo. Porém muita gente começa a perceber a necessidade de superá-la. Identificada a necessidade, abre-se o espaço para um diálogo em que as opiniões sobre cada tema não sejam previamente definidas por identidade partidária. Para o entendimento em temas específicos e conjunturais. Como lembrou Maurício Moura, da Universidade George Washington (O Valor, 3/3/20), surge uma tendência para mudança dos paradigmas de ação política na direção do entendimento. Para ele, os discursos de convergência devem ganhar espaço. Entre os quais, a unidade de ação que o país precisa para superar a coronacrise.

Há quem ache que, para enfrentá-la, o Brasil precisaria fazer como Israel, que sempre teve uma política polarizada. Mas que, em alguns momentos, conseguiu pôr na prateleira as querelas ideológicas e partidárias. Como agora está prestes a fazer com o diálogo entre o oposicionista Benny Gantz e o direitista Binyamin Netanyahu para viabilizar um governo depois de três eleições inconclusas e construir um programa de combate à pandemia.

FHC (Estadão, 5/4/20) lembra que a dívida pública gerada para combater a coronacrise vai precisar ser paga na retomada. Mas que, “em geral a maior parte da conta vai para o conjunto da população, e não para os que mais podem. Terá de haver mobilização política para que desta vez seja diferente”. E, acrescento, mobilização implica articulação, incluindo a que precisa ser feita entre diferentes. Aliás, isso já está ocorrendo com o (quase consenso) sobre a priorização do enfrentamento científico, técnico e solidário da ameaça da Covid-19. A despeito do negacionismo do presidente e seu círculo, esse quase consenso envolveu até mesmo integrantes do seu governo. Ao menos os mais lúcidos. Daí já surge um campo para o diálogo amplo sobre o planejamento para sair da crise. E, claro, sobre as mudanças necessárias para que a dívida pública da coronacrise seja paga pelos que nunca arcaram com os custos das crises anteriores. Os bancos na primeira fila. Para isso, há que haver uma ampla coordenação de forças políticas que hoje mal se falam. Utópico? Pode ser. Mas, como já advertira, um velho filósofo do Século 19, “a humanidade só apresenta os problemas que é capaz de resolver”

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