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Opinião
Oportunidades

Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República. Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King's College London - KCL

Publicado em: 11/03/2020 09:00 Atualizado em:

Houve um tempo em que eu olhava ressabiado para as chamadas “ações afirmativas”. Em especial, para aquelas que vinham em forma de “discriminação positiva”. Era jovem, muito jovem. Acho que comecei a mudar de ideia quando me dei conta, já para o final do meu curso, que, na UFRN, em direito, havia apenas um aluno oriundo de escola pública. Depois veio o estudo e o trabalho com a temática. A gente, querendo, aprende muita coisa na vida.

Sei que existem pessoas – notadamente, os liberais e os homens de negócio – que são contra quaisquer medidas especiais, tomadas pelo Estado ou pela sociedade, para compensar as vulnerabilidades decorrentes da marginalização por motivos raciais, de incapacidade, de gênero e por aí vai, assim mitigando desigualdades produzidas ao longo da história. Sei que muita gente jura ser o sucesso das pessoas apenas o resultado de suas virtudes (inteligência e capacidade de trabalho, por exemplo) e das escolhas feitas na vida. Sei que muitos têm fé de que os frutos da sociedade, altos rendimentos e status social, já são dados a quem merece. Essas pessoas não vão querer saber desse papo de ação afirmativa. Vão me esculhambar. Mas devo dizer, correndo o risco de perder alguns contatos: tem gente que não quer aprender nada na vida.

Registro que não estou aqui querendo retirar o mérito pessoal de cada um no sucesso de suas vidas. Acredito bastante no estudo e no trabalho. Tanto é que sempre repito a frase do grande Thomas Edison (1847-1931): “Talento é 1% inspiração e 99% transpiração”. Mas acho que isso – ter talento – não é suficiente para o sucesso na vida, se não existem as oportunidades e os recursos necessários para tanto. Falo de oportunidades iguais, o máximo possível, para todos.

Entretanto, numa sociedade tão desigual como a nossa, isso de oportunidades para todos está longe de ser o caso. Na verdade, o acesso às oportunidades da vida varia consideravelmente a depender de onde o cidadão está localizado na teia social. Por óbvio, aqueles pertencentes às minorias ou a grupos desfavorecidos têm bem menos oportunidades. E é aí que entra, para minimizar desigualdades de oportunidade, a ação afirmativa.

Aliás, outro dia, li num livrinho – “Se liga na sociologia”, de Chris Yuill e Christopher Thorpe, Globo Livros, 2019 – uma explicação, bem pé no chão, que me deixou ainda mais convencido: “Estudos demonstraram que alguns indivíduos têm acesso a melhores oportunidades graças à posição social do pai. Isso significa que uma pessoa nascida numa família rica tem boas chances de ficar igualmente rica. É raro também que uma pessoa de classe média, mesmo com maus resultados na escola, desça na escala de classe para se tornar parte da classe trabalhadora. O sociólogo francês Pierre Bourdieu identificou um dos fatores responsáveis por essa situação desigual. Ele enfatizou a importância do que chamou de ‘capital social’, ou os valiosos contatos que as pessoas têm que poderiam ajudá-las a conseguir um bom emprego. Pessoas de classe média são mais propensas a ter o capital social que as ajudará, com a família, a ter êxito na vida. Por exemplo, os pais de um estudante de classe média que não está indo bem na faculdade podem ter um amigo que administra um negócio e que ajudará seu filho a conseguir um emprego. Mais abaixo na escala social, esse tipo de capital social, tão útil, é menos provável de ser encontrado”.

Bom, aqui, acho que até os homens de negócios, mesmo não querendo, vão concordar comigo. Contato é tudo. Sobretudo se é com o rei de plantão.

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