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Opinião
Roberto Motta: "O Príncipe da Antropologia"

José Roberto de Souza
Doutor em Ciências da Religião e professor universitário

Publicado em: 06/02/2020 03:00 Atualizado em: 06/02/2020 08:56

No final do ano de 1962, esteve no Recife um professor holandês, representando um novo Instituto de Estudos Sociais, da cidade de Haia. Era uma instituição voltada para países do Terceiro Mundo. O holandês, solicitando indicações, obteve o nome do jovem Roberto Motta, indicado pelo professor e sociólogo Gilberto Freyre como um bom nome para estudar nessa nova instituição.

Apesar da sua formação inicial no campo da Filosofia, Roberto não hesita em dizer que sua opção pelas Ciências Sociais se deu pelas recomendações do seu pai, considerando esse um campo mais promissor. Passou dois anos na Holanda, onde terminou o seu Mestrado em Sociologia. O curso foi realizado em língua inglesa, dedicando-se a estudos inspirados pela sociologia histórica de Max Weber. Depois desse período, retornou ao Brasil, onde voltou as suas atividades no Instituto Joaquim Nabuco.

No ano de 1970, mais especificamente no mês de março, Roberto começou a lecionar no Mestrado em Ciências Sociais da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Em setembro desse mesmo ano, ganhou uma bolsa Fulbright-Hays para fazer o seu doutorado nos Estados Unidos, na Universidade de Columbia, em Nova York. Nisto teve decisiva influência o seu excelente inglês, comprovado pelas provas que teve de fazer para obtenção da bolsa.

Roberto, por ter facilidade em raciocínio verbal, porém dificuldades em ciência exatas, foi recomendado pelo professor Charles Wagley a migrar do campo da Sociologia para o da Antropologia. Passou a ser orientado pelo professor Robert Murphy. Retornou para o Brasil em meados de 1972 e começou as suas pesquisas de campo no início de 1973. A conclusão e a defesa da sua tese aconteceram dez anos depois, em maio de 1983.

Ainda no final da década de setenta, entre os anos de 1977 e 1978, juntamente com o professor René Ribeiro, fundou a Pós-graduação em Antropologia na UFPE. Entretanto, apesar de todas as influências que possam ser citadas na vida de Roberto, uma coisa é certa: o doutor Roberto Motta, diante do seu natural talento, competência e esforços, construiu o seu próprio nome de admiração e respeito. Faz bem lembrar as palavras do professor e cientista político Hely Ferreira quando afirmou: “Alguém já disse que as pessoas devem optar em passar pela história ou fazer história. O professor Roberto Motta fez opção pela segunda, basta observarmos o seu legado, pois se percebe que não é fruto do acaso e sim da sua competência e amor pelas ciências humanas”.

Roberto Motta, como ele mesmo diz, preza-se muito de sua francofonia e francofilia. Não causa surpresa que tenha sido elevado à categoria de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras da República Francesa. Recebeu também a medalha Roquette-Pinto, conferida pela Associação Brasileira de Antropologia, em reconhecimento aos serviços prestados à Ciência Social em plano nacional e internacional. 

Mesmo aposentado, é bom que se saiba que esse Cavaleiro continua extremamente ativo com as suas inúmeras pesquisas e palestras, frutos de vários convites no Brasil e no exterior. Recentemente, o doutor Roberto Motta foi convidado pela ex-presidente da Academia Pernambucana de Letras, a Dra. Margarida Cantarelli, para proferir uma conferência na Sessão Ordinária na APL com o seguinte tema: “Paradigmas de Interpretação das Religiões no Brasil”. A sala estava lotada para ouvi-lo. Na apresentação, foi lida uma síntese do seu currículo. Como se não bastasse, diante dos seus serviços prestados, através das suas inúmeras contribuições no campo acadêmico e os seus títulos conquistados, Roberto foi apresentado dignamente como o “Príncipe da Antropologia”.

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