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Opinião
O uso do celular à mesa

Bartyra Soares
Membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 10/02/2020 03:00 Atualizado em: 10/02/2020 09:03

Famílias vivendo sob o mesmo teto, participando de um dia a dia semelhante, usufruindo dos mesmos costumes, pelo menos aparentemente, têm sido vítimas de desencontros, afastamentos afetivos, por vezes, sofrendo de agressões verbais e físicas.

Preocupado e consciente dessa situação, o papa Francisco,na cidade do Vaticano, ao discursar na sacada da basílica de São Pedro, fez um apelo coerente e digno de reflexão: “As famílias devem retomar a comunicação dentro do lar, recolhendo o celular durante as refeições”. Ele poderia até ter ido mais longe no seu apelo. A intercomunicação entre os membros de uma família é importante também em outros momentos.

As relações amistosas, de uma maneira ampla e confiante, num encadeamento entre pais, filhos, avós, irmãos, parentes e agregados são fundamentais. É indispensável que todos se respaldem, mutuamente, na adesão a uma vida de respeito, apoio e amor.

A vida em família requer participar de um relacionamento coletivo, integrado às vivências do lar. Quando seus membros emitem opiniões divergentes sobre o que quer que seja, não significa imposição de uma personalidade forte, não quer dizer a manifestação desmedida do livre arbítrio. O direito de se expressar é de todos. A coerência é que deve ser responsável pelo modo de agir adequado.

Para o pensador espanhol Ortega y Gasset, o homem vive em risco permanente de desumanizar-se. Humanistas de renome situaram os indivíduos como centro do mundo numa escala de importância superior. Com o humanismo desenvolveram-se posturas éticas que atribuem um maior valor à dignidade, às aspirações e à capacidade de agir do homem, como ser pensante, havendo, em primeiro plano, destaque para o cumprimento correto das ações da consciência. Que se faça jus a isso, que se faça jus à integridade, ao despertar de que o direito de cada pessoa termina onde começa o do outro. Comedimento e justiça são atitudes importantes para o transcorrer de uma vida civilizada.

Atualmente, com o mau uso da internet e, apesar de suas enormes vantagens, caminhamos para a desumanização, colocando os bens materiais e a máquina como centro e medida de tudo. Usar o celular faz parte do progresso, inadmissível é a onipotência que este aparelho desperta. Uma grande maioria se acha no direito de que mediante a teclagem de botões pode direcionar, não só sua vida, mas a dos outros.

A atenção e o respeito aos indivíduos, a partir do comportamento no próprio lar, são as vigas mestras para a estrutura de uma sociedade ajustada.

Por que a cada dia vemos e ouvimos na mídia crianças vítimas de balas perdidas, de estupros? A criminalidade acontecendo por motivos fúteis? A banalização da vida crescendo e tudo sendo visto com naturalidade? A falta de comunicação em profundidade nos lares não tem sido o motivo ou um dos motivos principais para tanto desmando?

Quando as circunstâncias priorizam a individualidade do ser humano ante o coletivo, faz-se evidente sua incapacidade de impor controle sobre a multiplicidade de opiniões e posturas, em meio aos quais precisa o indivíduo para conviver. A tolerância e valor da existência, nos lares, na sociedade como consequência, pedem paz. Não há tempo a perder.

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