Diario de Pernambuco
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Opinião
O escrevente e a máquina de datilografia

Vladimir Souza Carvalho
Presidente do TRF5

Publicado em: 08/02/2020 03:00 Atualizado em: 08/02/2020 08:22

O fórum foi fruto de mudança da Exatoria para uma sede nova. O vazio, preenchido, também, por herança. A mesa de audiência e as cadeiras respectivas eram da biblioteca do Tribunal de Justiça. Tudo adquirido com muita adulação, alguns servidores da Corte fazendo biquinho e eu fechando os olhos, sem me afastar um milímetro do pedido, carrapato que se ligava ao corpo, dando trabalho para se desgrudar. O bom cabrito não berra, me lembrava sempre. Importante era dotar a sede de móveis condignos, que, aliás, estavam sobrando, com a saída do Tribunal para prédio novo. Entonce, abriu-se também espaço para pedir, agora, uma máquina de datilografia. A sede nova assim exigia. O argumento funcionou. A máquina foi liberada.

A sua inauguração ocorreu sem festa. Garrafa alguma de champanhe foi aberta. Na sua modéstia e timidez, não mereceu nenhuma notícia. Verificou-se na tomada de um depoimento. Não tínhamos um datilógrafo oficial, à míngua de recursos para custeá-lo, o que nos obrigava a utilizar dos serviços dos escreventes do Cartório do 1º Ofício. Um deles foi enviado para o serviço inaugural que ia ser efetuado com o uso do novo utensílio do fórum. Momento histórico, pois, a reunir no fórum, que pela primeira vez, lá existia, sala de audiências de madeira de primeira qualidade e o instrumento apropriado, que era novo.  

As partes com seus respectivos advogados, a testemunha, primeira, a ser inquirida, o escrevente – que vinha da roça, acostumado, até então, a trabalhar na enxada, - colocou o papel na máquina. Na primeira teclada, o fórum estremeceu.  Minha intervenção foi imediata. Não deixei bater a segunda letra. Educadamente, dispensei-o da tarefa. Pode se levantar. Outra teclada dessa, tudo se esfarela, peça para todo lado. Alguns minutos depois, veio uma mulher para substituí-lo. Mão leve, dedos suaves. Sem a mesma destreza, fez o serviço direitinho. O instrumento respirou aliviado. Estava salvo. Depois raciocinei: sair da enxada pesada para a máquina de datilografia era tarefa que exigia muito tempo para adaptação. O importante, contudo, foi realizado. Pelo menos, até deixar a comarca, removido para outra, permanecia funcionando e intacta. O escrevente..., graças a Deus, bem longe dela.

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