Diario de Pernambuco
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Opinião
O carnaval dos clubes e o lança-perfume

João Alberto Martins Sobral
Jornalista

Publicado em: 21/02/2020 03:00 Atualizado em: 21/02/2020 08:33

A mudança foi radical, mas muita gente, com certeza, lembra como era o reinado de Momo do Recife antes da criação do chamado carnaval multicultural, até hoje mantido pela prefeitura. Tudo se concentrava nos clubes sociais, que atraiam multidões e disputavam a liderança. Durante muitos anos, o Internacional dominava, mas depois teve que disputar com o Português, que passou a ser o maior. Os diretores dos dois clubes tinham que se esconder dos pedidos de convites na semana pré-carnavalesca. Basicamente, as festas, do sábado à terça-feira tinham duas orquestras, que se revezavam no palco, sem deixar a música parar, sempre com a participação dos cantores como Expedito Baracho e Claudionor Germano. As principais eram as dos maestros Nelson Ferreira, Clóvis Pereira, José Menezes, Guedes Peixoto, Duda, Edson Rodrigues e Ademir Araújo. Do Sul, os clubes importaram as principais orquestras, dos maestros Erlon Chaves, Severino Araújo, Waldir Calmon. Os dois presidentes que mais se destacaram na época foram José Sales Filho no Internacional e Carlos Costa no Português. O Internacional tinha apenas mesas, na primeira fila ficavam as autoridades, como o governador, o prefeito, os comandantes militares. Depois, o Português ampliou seus camarotes, que antes não eram usados, que acabaram sendo a principal arma para chegar à liderança.

Os clubes faziam bonitas decorações nas suas sedes, um setor em que dois nomes se destacaram: José de Melo e Ary Nóbrega. Os foliões investiam muito nas roupas, uma pra cada dia. E algumas fantasias. Algumas uma enrolação, como as de árabe e comandante de navio. E havia, nas portarias, controle rigoroso para impedir que os foliões levassem bebidas, especialmente nas bolsas das mulheres. É que a venda das bebidas - sempre muito mais caras - era uma das grandes fontes de renda dos clubes.

Além do Português e Internacional, tínhamos carnaval todos os dias no Sport, que trouxe pela primeira vez ao Recife a Super Oara de Arcoverde, que se apresentou junto com a de Evaldo Gouveia, do Rio, e no Santa Cruz. O Cabanga fazia festa famosa na sexta-feira, o Caxangá no sábado, o Iate no domingo. Tinha ainda a AABB, o Clube Sargento Wolff, o Olinda Praia Clube, o Clube Líbano Brasileiro. Todos incluíam uma vesperal infantil, que começava às 15h e terminava impreterivelmente às 18h. As festas da terça-feira só acabavam depois das 5h da manhã, com as orquestras seguindo para as ruas próximas, acompanhadas pelos foliões mais resistentes. E eram muitos, lamentando a chegada da Quarta-feira ingrata.

E havia festas voltadas para os solteiros, onde, diziam era proibido a entrada de esposas, noivas e namoradas fixas. As principais eram as manhãs de sol do Sport e o Baile dos Casados, no Atlético Clube de Amadores, que atraiu muitos governadores e prefeitos. Na verdade, era muito folclore, nada que lembrasse famosas festas do Rio, que as revistas O Cruzeiro, Manchete e Fatos e Fotos mostravam, com mulheres seminuas. O carnaval de clubes do Recife sempre foi, neste sentido, muito comportado. E, claro, havia brigas, mas eram poucas, normalmente no final das festas, com o teor alcoólico dos foliões já elevado.

Personagem importante nessas festas era o lança-perfume, tão suado que a famosa marca francesa Rhodia instalou fábrica no Brasil pra fazer o lança-perfume Rodouro, que era vendido em caixas de madeira, com quatro unidades (uma para cada dia de carnaval). No Centro da cidade, eram instaladas barracas para a venda do produto. Nilo Coelho foi o governador mais folião da história do nosso carnaval. Ia a todos os bailes e circulava nos salões com a primeira-dama Maria Tereza, sempre com uma toalhinha no pescoço. Todos os anos ele me presenteava com uma caixa. Importante lembrar que o uso do produto era liberado. Falavam de mortes, mas, como repórter, só me lembro de uma: de um rapaz que morava num palacete na Rua das Graças, que colocou o produto no travesseiro e acabou falecendo. Dizem que por influência de Flávio Cavalcanti, o então presidente Jânio Quadros assinou, em 1961, decreto proibindo o produto, o que provocou muita revolta dos foliões. Além do cheirinho gostoso, era usado para paquerar, lançando um jato em direção ao alvo sentimental, fazendo uma de cupido. O chamado amor de carnaval na maioria das vezes só durava até a Quarta-feira de Cinzas, mas muitos casais formados na folia acabaram se casando e sendo felizes por muitos e muitos carnavais. Quem viveu naquela época e não cheirou lança-perfume que atire a primeira pedra....Depois surgiu o chamado lança-perfume paraguaio, numa embalagem de vidro, este sim capaz de fazer muito mal.

O carnaval multicultural, que é mantido até hoje, simplesmente acabou com as festas nos clubes. Passaram a ter shows de artistas famosos nas ruas e de graça. Alguns clubes ainda tentaram resgatar suas festas, sem o menor sucesso. Ficaram apenas para a história do carnaval. Hoje, apenas os polos da prefeitura e os camarotes pagos.

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