Diario de Pernambuco
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Opinião
Da arte de viajar

Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República. Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King's College London - KCL. Mestre em Direito pela PUC/SP

Publicado em: 05/02/2020 03:00 Atualizado em: 05/02/2020 08:27

A arte da Viagem (Quetzal Editores, 2014) é o título de um dos muitos livros de Paul Theroux (1941-), escritor americano, romancista e, sobretudo, um craque em “literatura de viagem”. Posso até dizer que Theroux é um “filósofo de viagens”, se é que existe essa especialidade na arte/ciência que Tales de Mileto (624-546 a.C.) inaugurou.

O livro é excelente, começando pelo capítulo em que Theroux condensa, em poucas palavras, suas ou de escritores famosos, toda uma cultura sobre viagens, para depois apresentar, divididas por subtemas, outras “sabedorias” inspiradas em intelectuais viajantes, tais como Samuel Johnson (1709-1784), Robert Louis Stevenson (1850-1894) e Claude Lévi-Strauss (1908-2009). Este último, lembremos, em suas andanças, esteve por aqui, nestes Tristes Trópicos (livro de 1955), por alguns anos, como professor na Universidade de São Paulo.

E, nestes tempos sombrios, devo destacar, entre as lições da “filosofia da viagem”, duas frases geniais: “A viagem é fatal para o preconceito, a intolerância e a estreiteza do espírito”, de Mark Twain (1835-1910), e “Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo”, de Gustave Flaubert (1821-1880). Ficam para meditação.

A verdade é que viajar é uma das grandes realizações da vida. Embora a volta à casa, são e salvo, para junto dos nossos entes queridos, seja uma alegria maior (assim acho, confesso).

No mais, todos temos nossas preferências de viagens. Alguns gostam de ir para lugares ainda desconhecidos ou exóticos. Outros gostam de voltar, pela enésima vez, àquele país ou cidade. Alguns gostam de ir a jogos, a shows ou a peças de teatro. Parques temáticos também. Muitos adoram ir a restaurantes para comer o “diferente”. Tomar vinho ou experimentar aquela cerveja artesanal da região. Alguns vão para praticar esportes ou alguma outra aventura que exija mais do corpo do que da mente. E por aí vai. Sertão de pedra ou Europa, fica a seu gosto.

Já viajei muito, num tempo em que, jovem, sonhava com as aventuras de Ibn Battuta (1325-1354) e de Marco Polo (1271-1279). E ainda viajo bastante a trabalho. Mas isso não é uma opção. É obrigação. A cada dia mais penosa.

Eu gostava de viajar para estudar. Formalmente, matriculado em algum curso de línguas ou de direito, área em que exerço a minha profissão (e todos nós, viajantes ou não, precisamos ter uma profissão). Ou mesmo para apreender, em quinze dias, em meio à “tempestade cerebral” que só uma viagem nos proporciona, aquilo que levaria seis meses para aprender em livros de história ou de geografia.

Hoje, o que eu gosto mesmo é de visitar mercados (acho que suas cores me encantam), xeretar livrarias e sebos (aqui são as cores e as letras) e, sobretudo, andar a pé, por avenidas e vielas, parques e praças, sem pressa e perdidamente. Vendo as coisas, os animais e as pessoas. Chama-se isso de flanar, uma “ciência” que Honoré de Balzac (1799-1850) definiu, poeticamente, como a “gastronomia dos olhos”. Não existe coisa melhor, asseguro (em se tratando de viagens, claro).

E para descobrir isso não precisei ler filosofia ou ir muito longe. Foi só escutar o nosso Gonzagão (1912-1989), que labutou na vida de viajante, do seu Riacho do Navio ao “mei” do mar, por léguas tiranas ou na estrada de Canindé: “Ai, ai, que bom/Que bom, que bom que é/Uma estrada e uma cabocla/Cum a gente andando a pé/(...)/Quem é rico anda em burrico/Quem é pobre anda a pé/Mas o pobre vê nas estrada/O orvaio beijando as flô/Vê de perto o galo campina/Que quando canta muda de cor/Vai moiando os pés no riacho/Que água fresca, nosso Senhor/Vai oiando coisa a grané/Coisas qui, pra mode vê/O cristão tem que andá a pé”.

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