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Opinião
Editorial Baixando a poeira

Publicado em: 21/02/2020 03:00 Atualizado em: 21/02/2020 08:32

Os últimos acontecimentos no Ceará, com o motim de setores da Polícia Militar que culminou com ferimentos a tiros de revólver no senador licenciado Cid Gomes (PDT), acendeu o sinal de alerta entre governadores de pelo menos sete estados da Federação. A tensão entre as administrações estaduais e seus efetivos policiais, por causa de reivindicações salariais, não pode subir mais, sob o risco de a situação sair do controle. Importante sublinhar que movimentos paredistas de servidores da área de segurança pública estão proibidos desde 2017 por determinação dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

Impensável a repetição de atos como os ocorridos num passado não muito distante, com policiais civis e militares afrontando abertamente os poderes constituídos e deixando a população à mercê da sanha da bandidagem. Foi o que aconteceu na crise na segurança pública no Espírito Santo, com o macabro saldo de 219 mortes. Foram dias e noites de terror vividos pelos moradores da capital e outras grandes cidades capixabas, em 2017, quando os policiais cruzaram os braços e os criminosos tomaram de assalto ruas, praças e avenidas, promovendo saques e atos de selvageria.

Representantes de entidades ligadas às forças de segurança pública estimam que a situação, atualmente, é mais complicada, no âmbito das polícias militares, justamente no Ceará e no Espírito Santo, além da Paraíba. Os agentes estão mobilizados por causa de demandas salariais da tropa e, se as negociações não forem exitosas, há risco de novas sublevações. Também há movimentos reivindicatórios em Pernambuco, Alagoas, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina e na Bahia. Nos dois primeiros, policiais civis ameaçam parar durante o carnaval, o que seria bastante temerário.

No caso específico do Ceará, a tensão aumentou depois que o governo enviou à Assembleia Legislativa proposta de reestruturação salarial, que foi rejeitada por parte do contingente da Polícia Militar. Na madrugada de anteontem, homens encapuzados e armados invadiram quartéis e roubaram 10 viaturas. Os protestos se alastraram e chegaram a outras sete cidades, além de Fortaleza. Em Sobral, o quinto município mais povoado do estado e o segundo maior do interior, pessoas com os rostos cobertos percorreram as ruas do centro e ordenaram que os comerciantes fechassem as portas.

Foi nesse clima de confronto que o senador licenciado Cid Gomes foi atingido por dois tiros, num ato extremado e reprovável, depois de tentar entrar num quartel amotinado em Sobral com uma retroescavadeira. O governador Camilo Santana (PT) já tinha solicitado ao governo federal a presença da Força Nacional no estado e condenou a agressão ao parlamentar.

Diante da insegurança gerada por ameaças de greves de forças policiais em várias unidades federativas, foi muito criticada, entre seus pares, a decisão do governador de Minas Gerais, Romeu Zema, de conceder reajuste salarial de 41,7% aos policiais mineiros. Há o receio de que o caso de Minas, cujas contas estão no vermelho, seja usado como exemplo pelos servidores de outros estados. Lutar por melhorias salariais faz parte do salutar convívio democrático, mas o que se espera é que as negociações se deem, em todo o Brasil, dentro do respeito à lei e à ordem. É hora de baixar a poeira, para o bem de todos, em especial, da população.

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