Diario de Pernambuco
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Opinião
Apartheid econômico e cultural no carnaval de Olinda

Múcio Aguiar
Presidente da Associação da Imprensa de Pernambuco

Publicado em: 27/02/2020 03:00 Atualizado em: 27/02/2020 09:05

A tradição europeia misturada aos ritmos musicais dos africanos criou em nosso país uma das maiores manifestações culturais do mundo. Municípios mais tradicionais entendem a necessidade de preservar e salvaguardar suas manifestações culturais, que são base da identidade e do pertencimento. É inegável que quando nos lembramos dos papangus, completamos: de Bezerros; os maracatus: de Nazaré da Mata; os bonecos gigantes: de Olinda e de Belém do São Francisco.

A importância do carnaval é tão expressiva para Pernambuco que a Unesco considerou o frevo, nosso gênero musical, como patrimônio cultural imaterial da humanidade.

Sensível a essa realidade, em 2015, foi sancionada a lei que proíbe casas camarotes no sítio histórico do município. Na tentativa de burlar a legislação municipal, as promotoras das casas camarotes migraram do sítio histórico para a área de entorno, que também é de proteção legal, menos rigorosa, estando algumas locando espaço público para elitização do carnaval olindense.

A locação desses espaços vem gerando uma promíscua utilização de um parque público, Memorial Arcoverde, que deixa de servir na totalidade para finalidade “pública” para abrigar e favorecer ao privado (Camarote Olinda e Carvalheira), garantindo enriquecimento de um grupo e influenciando negativamente para a descaracterização de um dos maiores patrimônios culturais de Pernambuco: o carnaval de rua.

Aberto ao contraditório, a Associação da Imprensa de Pernambuco solicitou ao maior promotor do evento, o Carvalheira na Ladeira, acesso e informações sobre medidas compensatórias ao “crime” contra a cultura, e na inexpressiva resposta três parágrafos sobre o “projeto lixo zero”, cujo objetivo é obter a reciclagem de 90% dos resíduos produzidos por eles mesmos, ficando claro que o evento privado em nada favorece o público, além de promover no entorno do sítio histórico de Olinda a profanação e a marginalização do carnaval de rua, cuja característica é ser igualitário.

A realização do evento no Memorial Arcoverde, além de ocasionar a apartheid econômico e cultural, vem ocasionando o fechamento de acesso e saída de Olinda, algo similar ao vivido, no passado, pelos moradores da Avenida Boa Viagem, que durante o Recifolia sentiam seu direito de ir e vir tolhidos.  

Ao Ministério Público cabe investigar os motivos pelos quais os recursos financeiros obtidos no uso do espaço público, em cinco anos, ainda não foram revertidos para recuperação do parque público; ao poder executivo municipal, aprimorar a lei já existente, ampliando sua abrangência para toda a área de entorno de uma cidade patrimônio da humanidade; para os que fazem a imprensa, denunciar e favorecer o debate. Sobre o tema, a AIP buscará diálogo com as demais entidades e moradores para que em 2021 tenhamos apenas o legítimo carnaval da terra do Homem da Meia-Noite, do Elefante, da Pitombeira e de tantos outros que durante décadas lutam para preservar a nossa identidade cultural.

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