Diario de Pernambuco
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Opinião
A música do maestro Clóvis Pereira

Jairo Cabral
Mestrando em História
na Unicap

Publicado em: 20/02/2020 03:00 Atualizado em: 20/02/2020 08:30

A longa trajetória musical do maestro Clóvis Pereira caminha pelas veredas inspiradoras do erudito e do popular. Iniciou sua carreira, ainda menino, como músico autodidata tocando gaita de boca em Caruaru, cidade onde nasceu em 1932. Como ajudante do seu pai, Sr. Luiz Gonzaga Pereira dos Santos, clarinetista, que lhe ensinou as primeiras notas e que também foi projetista do Cinema Caruaru, tempo do cinema mudo, era o responsável pelas trilhas sonoras que embalavam os filmes ali exibidos. Nessa função tomou contato com a música sinfônica de Beethoven e o romantismo pianístico de autores como Johannes Brahms, Franz Schubert e Frédéric Chopin, que lhe serviram de estímulo para futuramente compor peças eruditas, a partir de temáticas populares. Ainda em Caruaru, começou a aprimorar seus conhecimentos musicais, ao tomar aulas de piano com a professora Djanira Barbalho e ao assistir aos ensaios da Banda Nova Euterpe, uma das mais antigas de Pernambuco, fundada em 22 de março de 1896, que executava frevos, dobrados, valsas, polcas e outros gêneros de sucesso à época e cuja sede ficava próxima a sua residência.

Em 1949 mudou-se para o Recife e, por sugestão do compositor Luiz Bandeira, foi estudar orquestração com o maestro Guerra Peixe, fortalecendo os laços com a música e se capacitando a produzir arranjos para gravações e apresentações ao vivo de intérpretes e orquestras que animavam os programas de auditório das rádios e das televisões locais. Foi professor do curso de música da UFPE e do Conservatório Pernambucano de Música e produziu centenas de arranjos de muita qualidade, o que lhe valeu o epíteto de “Caneta”, expressão utilizada no meio musical para reverenciar os maestros que ocupam o nível mais elevado de reconhecimento na função de arranjador.

Nos anos 1970 surgiu, idealizado por Ariano Suassuna, o movimento armorial que se propunha a criar uma arte erudita com base nas manifestações culturais e populares do nordeste, nos seus múltiplos segmentos. No campo da música, além do quinteto armorial, despontou também a orquestra armorial com destaque para a regência e execução de peças de autoria do maestro Clóvis Pereira, como Terno de Pífanos, Cantiga, No Reino da Pedra Verde, Três Peças Nordestinas: baião, aboio e galope, Velame e Mourão, esta última em parceria com o maestro Guerra Peixe.

A música carnavalesca pernambucana, na modalidade frevo de rua, também registra valiosas contribuições do maestro Clóvis Pereira, como compositor e arranjador. Embora a produção não seja abundante, a qualidade dos seus frevos é sentida na lógica da composição e na linha melódica irreparável, que provoca impacto sonoro cativante, acende o ímpeto brincante de quem aprecia a festança de Momo e embevece os ouvidos de quem escuta. Do acervo frevístico do maestro Clóvis constam a Sinfonia Carnavalesca sobre o frevo Vassourinhas, Luizinho no Frevo escrito em homenagem ao seu pai, clarinetista. Capiba no Frevo é uma reverência ao amigo, parceiro do movimento armorial e compositor Lourenço da Fonseca Barbosa. Clovinho no Frevo e Aninha no Frevo, é uma singela homenagem ao filho e a filha respectivamente. Ponta de Lança é um frevo gravado em 2004, pela Spok Frevo Orquestra, no disco Passo de Anjo.

O maestro caruaruense Clóvis Pereira, um dos maiores arranjadores do Brasil, portador do título de cidadão do Recife, pela excelência da obra musical produzida, é merecedor do reconhecimento e do tributo de quem faz música e carnaval em nossa terra. Evoé, maestro Clóvis.

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