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Opinião
Zé Cláudio: o mundo começou em Ipojuca

Luzilá Gonçalves Ferreira
Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 28/01/2020 03:00 Atualizado em:

Na loja se vendia de tudo. Ou quase tudo de que se precisava para viver a vida, na cidadezinha do interior. Na loja de seu Amaro, os fregueses podiam comprar ferragens, sapatos, louças, chapéus a perfumes. A monotonia da vida era quebrada pela compra de artigos diversos relativos a datas festivas, marcando o passar do tempo, na Ipojuca dos anos 30: no São João se vendiam balões, fogos de artifício, no carnaval, rolos de serpentinas, sacos de confetes e lança-perfumes. Quando não estava brincando na rua calma, no quintal da casa, entre mangueiras, mamoeiros e cajueiros, habitados por passarinhos e lagartas-de-fogo, um menino acompanhava, atento o movimento dos fregueses, escolhendo, pechinchando, no interior da loja. Mas o pequeno Zé Cláudio, sobretudo, se interessava pelo que acontecia lá fora. Na Rua do Comércio passavam pessoas ocupadas no que-fazer, boiadas, as rodas dos carros-de-boi rangendo tristes, os cavalos estacionados nas calçadas, aguardando os fregueses. Instalado no balcão, o menino aproveitava os grossos papeis de embrulho para desenhar o que via, pessoas e bichos. Vocação nascente, logo encorajada por Dona Guiomar Barbosa, a professora da escola primária, que descobriu o talento desenhista do aluno. E pediu a seu Amaro que trouxesse, de suas compras no Recife, o material de pintura com que Zé Cláudio executou sua primeira obra de arte, num pedaço de tábua redonda, um palmo de diâmetro. E começou uma trajetória de artista, continuada no Colégio Marista do Recife, e que, de acontecimento em acontecimento, levaria, anos depois, o adulto a percorrer o Brasil – Bahia, São Paulo, Amazonas, e muitas cidades em países do vasto mundo, onde viveu, contemplou paisagens, observou obras artísticas, conheceu pessoas, retirando o melhor dessas experiências, apurando a vocação ao longo de mais que bem vividos oitenta anos. Participando de movimentos culturais, como o Atelier Coletivo ao lado de artistas iniciantes na época, sob a batuta de Abelardo da Hora e outros idealistas vocacionados para a criação da beleza. E logo um exemplo de tenacidade e fé na função social e formadora da arte, que ajuda a habitar o mundo, e nos torna companheiros. “Aventuras à mão livre” publicado na coleção Perfis, da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), nos entrega o caminho de um artista inteiramente dedicado à arte, que, em meio a dificuldades de todo tipo, saiu vencedor. E soube, sabe, espalhar alegria e amizade, por onde passa. Julio Cavani, o autor do livro, filho de artistas, artista ele próprio, contribui, assim, com estilo simples, agradável de se ler, ao conhecimento do que acontece de bom e belo por estas bandas do Brasil: um pedaço de nossa criatividade, embora o pão seja caro e a liberdade pequena, Gullar dixit. Louvores a Julio e à Cepe. Nota: gostaria que maior ênfase tivesse sido dada a Leo, Leonice, a companheira, inspiradora e incentivadora da obra de Zé Claudio, ela própria uma artista. Mas nada é perfeito, como dizia a Raposa. 

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