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Saudade...

Ana Maria Castelo Branco
Mestra em Letras pela UFPE, professora, escritora e contadora de histórias

Publicado em: 30/01/2020 03:00 Atualizado em: 30/01/2020 08:42

O Dia da Saudade é comemorado anualmente no Brasil em 30 de janeiro. Esta data serve para recordar a memória das pessoas que já partiram, dos tempos bons que já se passaram e das lembranças da infância. “E por falar em saudade”, o que é a saudade?

Conforme apresenta o dicionário Aurélio, a saudade é “substantivo feminino: lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las; nostalgia”.

Na língua portuguesa, a palavra saudade ganhou uma conotação quase romântica, apesar de sabermos que, às vezes, a sensação não é muito aprazível, afinal de contas, é desconfortável sentir a falta de algo ou de alguém que por algum motivo não pode estar conosco.

Como a saudade é uma palavra muito abrangente, vamos fazer um recorte de suas várias formas de entendimento. O surgimento da expressão no Brasil, se deu na época da colonização. É importante ressaltar que nem toda língua traduz um significado para a palavra saudade, pois muitas não são capazes de explicar esse sentimento de ausência, de carência ou de melancolia.

No mundo, a palavra saudade é por vezes traduzida de forma empobrecida e fria, não conseguindo caracterizar esse sentimento tão nobre. Na língua inglesa, por exemplo, a palavra saudade é demonstrada como sentir a falta (i miss you), no espanhol é a falta que provoca recordação (recuerdo), no francês é lembrança ou souvenir e no italiano uma recordação de afeto (rocordo affetuoso).

Há quem diga, que não é útil sentir saudade. Embora, é senso comum não se poder fugir dela. Há também, os que gostam de sentir saudade de uma forma bem mais abrangente: saudade de objetos, de roupas, de fotos, de perfumes, de pessoas que já não existem no presente. Esse sentimento é tão inexplicável que não há forma de traduzi-lo, seja em qual for o idioma.

De origem latina, saudade vem de ‘solitate’, que na tradução literal quer dizer solidão. No vocabulário brasileiro, saudade acabou adquirindo um significado romântico e se manifesta num sentimento que todo mundo já experimentou e que poetas e escritores se deleitam, tanto em prosa, quanto em verso.

Apesar de saudade e nostalgia serem sentimentos semelhantes:  a saudade assume um caráter mais afetivo e pessoal, pois é um termo empregado com maior assiduidade para dizer a falta que sentimos de amigos, familiares ou entes queridos que não estão conosco.

A nostalgia pode conglomerar circunstâncias, experiências ou tempos passados, por exemplo: filmes, lugares, músicas, poesias, livros que podem nos fazer resgatar memórias afetivas e nos deixar saudosos, sem necessariamente causar maiores desconfortos. Mas, de maneira mais estrita, sentir falta de pessoas é algo mais intenso e mais profundo do que a lembrança de um momento.

De acordo com o escritor Gilberto Freyre, a saudade do passado, aliada à fé no futuro, pode erguer ou reerguer os valores de um povo ou nação. “A saudade do Brasil fez com que José Bonifácio renunciasse às vantagens que lhe eram oferecidas pela Europa e viesse ser, em sua terra (…) o campeão da independência nacional e o primeiro organizador do futuro do Brasil. (…) A saudade do Brasil fez com que Gonçalves Dias escrevesse no exílio os, há mais de um século, popularíssimos versos “Minha terra tem palmeiras”.  “Os Lusíadas”, livro que foi escrito pelo poeta português Luís de Camões é fortemente marcado por um sentimento de saudade dos tempos gloriosos de Portugal (das conquistas marítimas portuguesas)”.

Em nosso dia a dia, frases como na minha época era assim, antigamente as coisas eram melhores, no meu tempo... demonstram o quanto as pessoas são saudosistas de algo que não volta mais. A saudade, enfim, faz parte do nosso cotidiano, sem nem nos darmos conta. Praças, cinemas, terminais rodoviários, aeroportos, estações de trem, cartas ou e-mails enviados pela rede de internet são espaços onde a saudade trafega.

Existe um pensamento que diz que recordar é viver. Então, alimentemos nossa saudade com boas recordações para que o nosso espírito esteja sempre nutrido de felicidade. Quem de nós adultos, nunca sentiu saudades da aurora de nossa vida, de nossa infância querida, que os anos não trazem mais, assim como poetizou o Casimiro de Abreu?

Já dizia um pensador: “Saudade é uma palavra que nunca acaba”.

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