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Opinião
O interrogatório da acusada nervosa

Vladimir Souza Carvalho
Presidente do TRF5.

Publicado em: 15/01/2020 03:00 Atualizado em: 15/01/2020 08:49

Eu ouvia a acusada devagar, comendo o pirão pelas beiradas do prato, como quem não quer nada. O propósito era de relaxá-la, deixando-a bem à vontade, para que vencesse o nervosismo que, escancaradamente, exibia, a respiração ofegante, os olhos parecendo de bicho selvagem encurralado. O meu tom era suave, minha fisionomia, leve, tudo na busca de conquistar sua confiança. O fato, apontado como delituoso, se resumia nos ferimentos causados a outra colega de trabalho – acusada e vítima eram enfermeiras do hospital local -, e, segundo a denúncia, motivada pelo ciúme, a acusada se utilizou de uma gilete para produzir alguns cortes na vítima.

Confesso que, ainda hoje, tenho gastura quando imagino uma gilete, mesmo que cega, rasgando o braço ou outra parte do corpo, em cortes rápidos e reiterados. Arre! Atrás de tudo se escondia o motorista que levava pacientes dos povoados para o hospital. Era, ou seria, o objeto disputado entre as duas, ou o móvel do delito. O pior é que a acusada era casada, circunstância que a igualava ao motorista. O interrogatório ia, assim, lentamente, carro de boi subindo a ladeira, o gemido das rodas, os bois com dificuldade pelo peso e pelo piso (rimou), até que, no fechar de olhos, vi a bomba atômica explodir, digo melhor, a acusada, instantaneamente, ficou em pé e parecia ter sido tragada para cima, pelo salto que deu, para cair em velocidade maior. Ataque de histeria? Me falta ciência para afirmar.

Permaneci perplexo, apalermado, como Bentinho, depois do primeiro beijo em Capitu, ante a entrada da mãe dela na sala. A acusada subia e descia e eu parado, a boca aberta, os olhos esbugalhados, sem iniciativa alguma. Salvou a lavoura o oficial de justiça, que assistia ao interrogatório, na rapidez com que deu alguns passos a frente, abraçando a acusada, pelas costas, evitando o choque fatal do seu rosto na mesa da sala de audiências. Ufa! Respirei aliviado. À acusada foi servido um copo de água gelada, me cabendo à tarefa de registrar o fato no auto do interrogatório, destacando a impossibilidade de sua continuação. Ficaria para outra data, quando as nuvens negras se dissipassem.

Depois, pensei em realizar um curso de primeiros socorros, aprender a fazer curativo, saber a quantidade exata de açúcar no copo de água, para acalmar a pessoa, aplicar injeção, além de ter, no fórum, um estoque de remédios apropriados para cada ocasião, projeto que logo se evaporou, ... como tantos outros.

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