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Opinião
Noite senil

Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República. Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King's College London - KCL

Publicado em: 29/01/2020 03:00 Atualizado em: 29/01/2020 08:45

Sábado retrasado, deveras a contragosto, fomos, minha mulher e eu, ao Midway Mall. Em pleno verão natalense, isso é, de regra, uma barca furada. Mas havíamos comprado duas televisões no mês passado, e os pontos que esperávamos no programa de fidelidade da loja não haviam sido creditados. Tínhamos de reclamar pessoalmente. Coisa de consumidor atento. Disseram-nos que os eletrodomésticos não entravam no programa de pontos. Uma decepção.

Mas já que estávamos ali, fui também à Livraria Saraiva, enquanto minha mulher comia algo. Passei quase o tempo todo em duas sessões de livros de bolso. Pequenas obras-primas a 19 reais, a 29 reais, nada caro. Eu me afeiçoei por um tal Dualibi Essencial, um minidicionário de citações curiosíssimo. Era 94 reais. Saí de lá sem o livro. Uma questão de princípios.

Mas o pior ainda estava por vir. Na saída das lojas para o estacionamento – e para quem conhece o Midway, falo daquela entrada/saída que dá acesso tanto aos cinemas como ao Teatro Riachuelo – eis que damos de cara com um indivíduo fazendo xixi. Bem em cima de uma vaga de estacionamento para idosos. Um local completamente exposto, por onde passam milhares de pessoas por dia. Era um sujeito até bem-vestido que, torneira para fora, ainda fumava, tranquilamente, um cigarro. Bizarro mesmo, quase tanto quanto o vídeo do tal Alvim.

Ainda pensei em abordar o exibicionista. Mas o cara tinha quase o dobro do meu tamanho. E, se era babaca ao ponto de urinar ali, na frente de todos, certamente era também idiota para me dar um murro ou coisa pior. Estou ficando velho, mas não estou ficando doido.

Procurei alguém da administração ali por perto. Nada. Então, corri para o carro e, já motorizado, saí atrás de um vigilante. Vai ver dava tempo de enquadrar o mijão. Mas nada novamente. E voltei ao lugar do “crime”, de carro, já agora preocupado se o piso havia ficado molhado e perigoso para o idoso que fosse ali estacionar. Talvez pudesse alertar a administração para dar jeito ao menos nisso.

Foi aí que, ao me aproximar, vi uma moça estacionando na dantes referida vaga de idoso. A molhadinha. Ela – e aqui me refiro à moça – não tinha mais de trinta anos, logo pensei. Bem bonita, pensei em seguida (e rogo a Deus para que minha mulher não tenha escutado esse meu segundo pensamento).

De toda sorte, muito rapidamente, quedei num só fluxo de pensamento. Eis mais dois brasileiros que devem ficar por aí, nas redes sociais e nos bares da moda, bradando contra a corrupção, contra uma tal “Porta dos Fundos” ou contra qualquer outra coisa que suas cabecinhas bem penteadas tenham definido ser contra a moral e os bons costumes. Mas, no dia a dia, até nas coisas mais simples, são desprovidos de um mínimo de cidadania e decência. Outro dia até li – ou imaginei haver lido – algo como: “O brasileiro não é contra a corrupção. Ele é contra a corrupção praticada pelos outros”. Bom, o nosso Millôr Fernandes (1923-2012) assinaria essa frase orgulhosamente.

E se isso tudo já não bastasse para me deixar p da vida, eis que veio a gota d’água. A moça bonita, notando que olhava para ela, visivelmente constrangida por haver sido flagrada parando numa vaga de idoso, já meio corpinho fora do carro, ainda me pergunta: o senhor quer estacionar aqui? Essa beldade, além de muitíssimo mal educada, é cega também?

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