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Opinião
Editorial Crime transnacional pede ação conjunta

Publicado em: 23/01/2020 03:00 Atualizado em: 23/01/2020 09:01

Duas fugas surpreenderam o mundo nos últimos dias. Uma pelo ineditismo e sofisticação. A outra pela previsibilidade, repetição e envolvimento do crime organizado. Ambas lançam mão de recursos cinematográficos, adequados a roteiro de Hollywood.

Em dezembro, o poderoso executivo Carlos Ghosh engana a vigilância e, com a naturalidade de quem anda para a frente, sai pela porta de casa, pega um trem, hospeda-se em hotel, esconde-se numa caixa de instrumento musical, viaja para a Turquia, troca de avião e desembarca no Líbano. Segundo declarou, “fugiu do Japão, não da Justiça”.

Na madrugada de domingo, 76 detentos — 46 paraguaios e 30 brasileiros — escaparam de cadeia localizada em San Juan Caballero, na fronteira do Brasil com o Paraguai. Eles pertencem à facção Primeiro Comando da Capital (PCC), organização criminosa que atua principalmente em São Paulo à frente de rebeliões, assaltos, sequestros, assassinatos e narcotráfico.

A ação do PCC não se restringe ao estado mais rico do país. Vai além. Está presente em 22 das 27 unidades da Federação e em países vizinhos como Bolívia, Colômbia e Paraguai. Rebeliões sangrentas ocorridas no Pará, em Rondônia, no Amazonas, entre outras, que deixaram montanhas de cadáveres, se originaram da guerra de facções que disputam o poder em presídios.

Não surpreende, pois, a fuga em massa de detentos de San Juan Caballero, liderados pelo PCC. De forma diferente da escapada de Carlos Ghosh, marcada pela naturalidade dos atos, a dos bandidos modificou cenários. Eles passaram por um túnel de 70 metros escavado de dentro da unidade até o lado de fora.

Nada menos de 200 sacos de areia foram deixados em uma das celas do penitenciária. Mas, inacreditavelmente, ninguém viu nada. Nenhum agente percebeu movimentação ou ruído diferentes. Há suspeita de que muitos saíram pela porta da frente com assentimento dos guardas.

Tanta facilidade se deveu à corrupção de servidores e do diretor do presídio. A liberdade dos condenados teria custado US$ 80 mil e a cabeça do vice-ministro de Política Criminal. Vale lembrar que a compra de consciências a peso de ouro é prática comum aos chefões do tráfico mundo afora. Eles partem do princípio de que todos têm seu preço e se dispõem a desembolsá-lo para atingir o objetivo.

San Juan Caballero — exemplo da desenvoltura com que agem as facções criminosas transnacionais — reforça a tese de que o enfrentamento de organizações criminosas que atravessam fronteiras tem de ser feito em parceria com os vizinhos. Inteligência, troca de informações e colaboração permanente devem ser a tônica. O crime organizado só obtém êxito com o Estado desorganizado.

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