Diario de Pernambuco
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Opinião
Cidade para viver, cidade para lucrar

Roberto Ghione
Arquiteto, Conselheiro superior e ex-presidente do IAB PE

Publicado em: 28/01/2020 03:00 Atualizado em: 28/01/2020 09:01

A cidade é, numa visão humanista e existencialista, o lugar da urbanidade, da civilidade, da democracia, da ética, da convivência do homem habitando em sociedade, da integração e respeito pelas diferenças sociais, políticas, econômicas e culturais. A cidade é, também, o lugar das disputas, dos enfrentamentos, das convergências e divergências, da especulação, dos negócios, da riqueza e da pobreza material e espiritual.

Existe um conceito transcendente que a valoriza como lugar da vida em comunidade, assim como existe outro temporário, que a considera o espaço da negociação, da especulação e do lucro. Ambas as considerações têm sua presença e reconhecimento na história, e as cidades, ao mesmo tempo em que foram as precursoras das maiores conquistas da humanidade, foram também o resultado de ocultas ou evidentes intrigas, jogos de poder e especulação orientados a levar vantagens nos processos de crescimento e consolidação urbana. A arquitetura e o urbanismo, como representação dos valores sociais e culturais, manifestam nitidamente a grandeza e a miséria conjugadas nos diferentes estágios da evolução social e urbana.

Cidade para viver e cidade para lucrar são duas faces de uma mesma moeda: a dos interesses das pessoas compartilhando e construindo um mesmo espaço coletivo. Cidade como bem de uso, orientada a estimular o desenvolvimento social e cultural de seus habitantes; cidade como mercadoria, orientada a especular e obter benefícios do próprio processo de urbanização e crescimento.

No jogo genuíno de interesses sobre o espaço urbano é necessária a presença de um árbitro com sabedoria e assistência técnica adequada para compatibilizar os interesses, quase sempre contraditórios, entre quem vê a cidade como lugar para a vida em comunidade, e quem a vê como a oportunidade de realizar negócios derivados da própria demanda de desenvolvimento.

O gestor político aparece como o mediador de interesses, e os representantes da sociedade como encarregados de formular as leis que devem beneficiar o desenvolvimento urbano e social sadio e civilizado.

A defesa do interesse comum é o grande assunto da legislação urbana. Qual interesse? O de quem quer viver ou o de quem quer lucrar?

Este debate tem gerado, particularmente em Recife, resistências de grupos sociais inconformados com a gestão predominantemente mercantilista do desenvolvimento urbano. O direito à cidade para todos, a inclusão e a integração social são bandeiras que a reivindicam como lugar para viver, perante a desqualificação urbana promovida pela preponderância do lucro imobiliário.

A defesa do interesse geral, a implementação de políticas urbanas inclusivas e integradoras, a melhoria dos espaços públicos e o equilíbrio entre o negócio imobiliário e a qualificação urbana são os desafios que precisam ser cobrados dos gestores municipais como gesto de civilidade.

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