Diario de Pernambuco
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Opinião
A função social do escritor

Paulino Fernandes
Defensor Público do Estado de Pernambuco e professor

Publicado em: 22/01/2020 03:00 Atualizado em: 22/01/2020 08:55

Em qualquer movimento literário, seja na prosa ou na poesia, a Literatura sempre há de conservar o caráter lúdico, que é o viés mais conhecido da arte literária. Todavia, não pode o escritor se isentar de cumprir sua função social, já que será objeto de estudo e de formação de opinião. Chico Anysio sempre defendeu que o humorista não era obrigado a resolver as mazelas sociais, mas a denunciá-las. Penso que o mesmo compromisso deve ter o escritor.  No Jornalismo, que é uma das formas de manifestação literária, essa caracterização fica mais evidente, justamente porque a linguagem e os elementos de comunicação são mais objetivos, e a denotação predomina sobre a conotação.

Na contemporaneidade, entretanto, salvo exceções, assiste-se a uma intensa produção de livros, isentos de abordagem utilitária sobre a realidade, em que a escrita era mais compromissada com o real. Mas dos anos de 1500 até a segunda metade do Século 20, tivemos uma intensa produção literária voltada para a abordagem e para a reflexão dos problemas sociais. Um dos maiores exemplos que se teve, no Brasil, foi com a estética Realista, aqui melhor representada por Machado de Assis, embora os modernistas das três Gerações também tenham produzido, intensamente, influenciados por seu tempo.

No ano de 2019, conservaram-se diversificados eventos literários, a exemplo das bienais de livros, todavia se observou, como ainda se vem observando, uma significativa mudança, em tema de decréscimo, de público e de leitores, em relação aos demais anos.  

Acredito (seja na condição de escritor ou de leitor), que essa diminuição provenha, ao menos em parte, de um certo descompromisso que algumas obras e autores assumem, em relação ao debate dos problemas sociais, o que remete o público-leitor para leituras mais “imediatistas” e, por vezes, mais dissociadas da realidade em que vivemos. Não há dúvida ainda de que a certeira sentença camoniana, que diz “mudam-se os tempos, mudam-se os costumes”, também contribui negativamente para o declínio da Literatura na contemporaneidade. O leitor de romances dos fartos movimentos literários d’outrora é hoje peça rara. Deu-se lugar a um público-leitor mais “afinado” com os meios de comunicação hodiernos, a exemplo dos “de carteirinha” das redes sociais e de aplicativos, como “whatsapp”, que infelizmente não mantém o mesmo afinco de leitura, como no passado. Sem discordar dos benefícios e utilidades que trouxe a inovação tecnologia e os meios de comunicação por ela gerou, é inegável o distanciamento que ela também produziu  em tema de leitura; do encanto do folhear o livro, e da intimidade que este meio físico de ler mantinha com a sociedade. “Apesar dos pesares”, ainda encontramos escritores e leitores que não abandonaram os meios tradicionais de convivência com a Literatura. Um dos exemplos é do peruano Mário Vargas Llosa, que em seu imperdível Ensaio A civilização do espetáculo – uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura, já nos alertava para a banalização da Literatura e das Artes, como sintoma de um mal que afeta a sociedade contemporânea. O vencedor do Nobel de Literatura em 2010, com seu Ensaio, foi além doutra Obra, de tema afim, de Guy Debort, que lançara anteriormente à Llosa, A sociedade do espetáculo.

Como conforto, aposto que a sobrevivência da Literatura e das Artes em geral é certa, mas um ajuste na convivência entre escritor, leitor e obra, com os modos de vida contemporâneos se faz sempre necessário.

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