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Opinião
Editorial Pragmatismo bem-vindo

Publicado em: 13/12/2019 03:00 Atualizado em: 13/12/2019 09:59

A relação argentino-brasileira lembra velha fábula cujos personagens são dois burrinhos. Uma corda curta os une pelo pescoço. Distante de cada um dos dois, uma viçosa touceira de capim. Famintos, um e outro fazem força para seu lado. Não saem do lugar. E a fome cresce. Num átimo de inteligência, eles caminham para o mesmo lado. Alcançam a ração. Caminham para o outro. Comem até a saciedade.

Brasil e Argentina, tais quais os animais da história, estão unidos por fortes vínculos. Um deles: o territorial. Vizinhos não se escolhem. São destino. O fado deu fronteira de pouco mais de 1.250 quilômetros aos dois países, cuja população atravessa sem passaporte em busca de praias, neve, cassinos, compras, comida gostosa. Uns e outros são bem-vindos. Além do enriquecimento cultural, movimentam o comércio. Hotéis, restaurantes, shoppings aumentam a clientela e as vendas.

Outro vínculo se refere às importações e exportações. Buenos Aires é o terceiro parceiro comercial de Brasília, atrás de China e Estados Unidos. Acrescente-se a isso o fato de ser o maior freguês de manufaturados, que acrescentam valor agregado aos produtos primários. Não se deve ao acaso a repercussão da pesada crise argentina no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.

Assim, o presidente Bolsonaro fez muito bem em ter mandado o vice-presidente, Hamilton Mourão, para a posse de Alberto Fernández. O gesto contribui — e muito — para distender a relação entre os dois chefes de Estado, arranhada por divergências ideológicas incompatíveis com o protocolo diplomático.

Pragmatismo é a palavra de ordem. Confrontos houve de ambos os lados. Bolsonaro chamou os então candidatos a presidente e a vice-presidente de “bandidos de esquerda”. Fernández respondeu com os adjetivos “racista, misógino e violento”. Trata-se de vocabulário violento, nada elegante e muito menos produtivo.

Mas, eleito, Fernández sentiu com mais realismo o peso que sustenta sobre os ombros. A Argentina que ora governa tem 40% da população na linha de pobreza; a dívida externa passou para 60% do PIB; a pública, para 76%; a inflação deve fechar o ano em 54%, as reservas líquidas do Banco Central são inferiores a US$ 10 bilhões — metade do necessário para saldar os débitos previstos para 2020.

No discurso de posse, o peronista disse que a prioridade do governo é o combate à fome e que o país precisa crescer para pagar os credores, atrair investimentos e reconquistar a confiança internacional. Fez, na ocasião, importante aceno ao Brasil. Pregou o entendimento e uma “agenda ambiciosa, inovadora e criativa”. Reforçou, também, o Mercosul.

A tarefa é difícil. Reduzir a crise social implica estabilizar a economia, que pressupõe medidas duras e urgentes — difíceis para um governo peronista, em que as corporações não raro têm poder maior que o do Estado.

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