Diario de Pernambuco
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Opinião
Cristina Tavares

Sylvio Belém
Procurador autárquico aposentado

Publicado em: 12/12/2019 03:00 Atualizado em: 12/12/2019 09:13

Foi antes de tudo uma guerreira, lutando com muita garra e determinação na defesa de várias causas sempre voltadas para o interesse nacional e do povo trabalhador. Filha do médico José Tavares Correia e de dona Mercês, teve suas raízes em Garanhuns, onde o pai fundou o Sanatório Tavares Correia, embrião do complexo hoteleiro da família com outras unidades em Recife e Maceió. Na sua juventude tornou-se amiga do grande pensador francês Jean Paul Sartre e de sua mulher, a escritora Simone de Beauvoir com quem conviveu em Paris. Aproximou-se também de Miguel Arraes, na época exilado na Argélia e escreveu o livro Conversações com Arraes. Depois substituiu o jornalismo pela política, elegendo-se deputada federal por três mandatos consecutivos, sempre se destacando como defensora das questões nacionalistas e populares.

Na sua passagem pela Câmara de Deputados participou de grandes debates que demarcaram sua inteligência e grande poder de argumentação, dois dos quais relato a seguir. No primeiro, por ocasião de uma discussão sobre o aborto, que ela defendia, foi contraditada pelo deputado Paulo Maluf que argumentou: “Deputada, V. Excia já imaginou quanto o Brasil teria perdido se a senhora sua mãe tivesse optado pela prática do aborto?” De imediato, Cristina retrucou: “Deputado Maluf, vejamos sob outro ângulo, V. Excia já imaginou quanto o Brasil teria ganho se a senhora sua mãe houvesse praticado o aborto?”. Risadaria geral e Maluf, atônito, sem saber o que dizer. No segundo, quando um deputado pernambucano comparou a trajetória dos dois criticando-a porque embora nascida de uma família tradicional usava suas energias em defesa dos trabalhadores, enquanto ele oriundo de uma famíla humilde se preocupava mais com os interessesda classe empresarial. Sem pestanejar, Cristina replicou: “Tens razão deputado ambos traímos nossas origens.” Em 1982 presenciei a maneira direta e corajosa como dialogava com o povo nos comícios. Numa visita ao município de Tabira, que enfrentava uma violenta estiagem, ela com o microfone em punho, perguntou a seus assustados ouvintes: “Por que vocês sofrem desse jeito?” “É a vontade de Deus”, respondeu um dos presentes. E ela “existe um só Deus ou mais de um?”. Vem a resposta: “Oxente dona, só um”. Concluiu a deputada: “Então aqui Deus castiga vocês e trata bem demais o povo rico de Recife onde existe água sobrando”. Sem condições de argumentar o sertanejo limita-se a murmurar “é Deus quem quer”, provocando a desafiadora conclusão dela: “Vocês têm que lutar contra essa injustiça, que não parte de Deus mas dos homens”. Nos olhares conformados de todos vi um brilho diferente diante daquela mulher simples e valente que lhes falava de forma direta e numa linguagem que os políticos não costumavam usar.

A última vez que a encontrei foi em 1988 no aeroporto de Guararapes, quando viajava com a delegação do Santa Cruz, nosso clube, para uma partida pelo campeonato nacional, ouvindo dela o pedido: “Traga a vitória de lá que eu garanto a de cá”, referia-se a sua candidatura a vice prefeita do Recife nas eleições municipais. Não ganharam nem o Santa nem ela, que a partir de então iniciou sua última e decisiva batalha contra o mal que infelizmente a levou precocemente, deixando um vazio na cena política pernambucana e nacional. No fim de seus dias ainda escreveu A última célula onde descreve o tratamento nos Estados Unidos na sua luta contra a doença.

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