Diario de Pernambuco
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Opinião
Clarice Lispector, 100 anos depois

Antônio Campos
Escritor

Publicado em: 10/12/2019 03:00 Atualizado em: 10/12/2019 09:11

Daqui a poucos dias, até dezembro de 2020, o mundo intelectual brasileiro e os admiradores da obra singularíssima de Clarice Lispector (1920-1977), devem estar agendados para as celebrações do talvez mais importante centenário de um vulto,no campo da criação literária, por acaso, nascida na Ucrânia, mas de alma e essência brasileiras. Um centenário que, por sua grandeza, deve ter início nos primeiros dias do novo ano, reunindo leitores, editores, centros acadêmicos, academias de letras. Ela, a mais importante escritora do século 20, declarava-se brasileira, dizia-se amorosamente pernambucana, lembrando sempre que foi no Recife, nos seus tempos de juventude, onde teria vivido os dias mais felizes de sua vida. Ela assim se expressava em escritos de lembranças sobre o seu tempo de caminhadas pelas praias de Olinda: “A quem devo pedir na minha vida que se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o Sol vermelho se levantar. Nunca mais? Nunca mais. Nunca.”

Foi nas areias da praias de Olinda, nas ensolaradas manhãs de verão, que ela entregava às ondas do mar, para sempre esquecer, as lembranças tristes que trazia, menina ainda, da terra natal, vítima da Guerra Civil Russa e da perseguição a judeus, do extermínio em massa, e da mãe, que teria sido vitima de violência por soldados russos.

Clarice tinha razão de sobra para não se considerar ucraniana: “Naquela terra, eu literalmente nunca pisei: fui carregada de colo”. Sempre considerou o Recife como a sua cidade natal, onde morou dos 4 aos 15 anos. Foi no Recife onde ela viveu as primeiras descobertas de sua vocação de dizer o indizível, a marca inconfundível do seu estilo introspectivo, que não tinha nada a dever a Joyce e a Virginia Woolf, a quem erradamente chegou a ser comparada. O grande erro da crítica foi o desejo de colocar a Clarice de “Perto do coração selvagem” numa rede de literatura comparada. Clarice (genial, criativa, comovente) foi única, desafiadoramente singular, pois sua escrita era por demais perturbadora, profundamente instigante, de uma beleza comovente. Há de se ficar atento, para nunca deixar de se ver, que, na obra da Clarice, aparece, de forma profunda e bela, um olhar de compaixão para a vida dos homens e das mulheres no Brasil.

Foi iniciativa da Fundaj, em 2017, o pedido de tombamento do imóvel 387, na Maciel Pinheiro, na esquina com a Travessa do Veras, no Bairro da Boa Vista.

Deve o Recife, talvez mais do que outra cidade, abrir as comemorações desse centenário. Sei de um grupo pernambucano voltado para os estudos sistemáticos da obra dessa escritora, nos campos da ficção, do romance e da crônica.

Sei da necessidade de se preservar, como patrimônio cultural do Recife, o sobrado centenário onde Clarice viveu os seus felizes anos de vida. O imóvel em que ela morou, atualmente sem uso, fica na esquina da Rua do Aragão com a Travessa do Veras, número 387, ao redor da Praça Maciel Pinheiro, onde há uma estátua da escritora. Foi iniciativa da Fundaj, em 2017, o início do tombamento desse prédio.

Devemos fazer uma campanha de divulgação e leitura, na capital e no interior, nas escolas, nos meios acadêmicos, nas bibliotecas públicas, da obra de Clarice, posto que, se nada se fizer nesse sentido, o centenário não terá razão de ser. Não se comemora a vida e a obra de um grande escritor, no seu centenário, sem o resgate do seu legado histórico, humano, intelectual.

A Fundaj, em 2020, estará fazendo iniciativas para o restauro e a criação de um Centro Cultural Clarice Lispector, no imóvel onde morou parte de sua juventude, sendo algo que preserve o seu legado de escritora, mas algo vivo para a cidade, certamente lugar para visitação turística e cultural.

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