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Opinião
Arquitetura e urbanismo: a importância das duas escalas na construção das cidades

Zeca Brandão
Arquiteto e urbanista, PhD pela Architectural Association School of London e professor associado da UFPE

Publicado em: 05/12/2019 03:00 Atualizado em: 05/12/2019 11:24

Durante o curso de graduação em arquitetura e urbanismo me senti pressionado pelos professores e colegas a escolher entre me tornar arquiteto ou urbanista. A turma era claramente dividida: havia os alunos que se identificavam mais com o lado artístico-cultural do ofício e desejavam ser arquitetos, e os que se interessavam mais pelo viés socioeconômico da profissão e pretendiam ser urbanistas. Os dois grupos praticamente não interagiam e usavam um vocabulário tão diferente que mal conseguiam se comunicar. Havia até um certo desprezo velado entre os dois lados. Os “arquitetos” consideravam os “urbanistas” desprovidos de talento artístico e acreditavam que por isso tinham optado pelo urbanismo, e os “urbanistas”, por sua vez, acusavam os “arquitetos” de alienados e preocupados apenas com questões de ordem estética.  

Eu, que tinha escolhido a profissão porque adorava desenhar, mas que, por outro lado, era fascinado por “cidades” (as considerava, e ainda as considero, a maior invenção humana), me sentia um peixe fora d’água! Passei o curso inteiro achando que precisava optar entre arquitetura e urbanismo. Esse dilema me perseguiu até final dos anos 80, quando fui para a Inglaterra realizar o meu curso de mestrado. Lá entendi que essa dicotomia já tinha sido superada e o ensino dessas disciplinas fundamentava-se, precisamente, no diálogo entre o edifício e a cidade. Ao retornar ao Brasil e iniciar a minha atividade como docente, constatei que o cenário permanecia o mesmo por aqui.

Como resultado desse falso dilema recorrente nas escolas de arquitetura do país, vários profissionais apresentam uma deficiência técnica com sérias implicações negativas para as cidades.  Formamos urbanistas competentes no desenvolvimento de análises e diagnósticos urbanos, mas que pouco entendem de arquitetura e são incapazes de projetar; assim como formamos arquitetos criativos no desenho de seus projetos, mas que são analfabetos na escala urbana e mal percebem o impacto que seus edifícios geram na cidade. Apesar de ser simplista – e até certo ponto injusto - responsabilizar esses profissionais pela crise urbana que enfrentamos, me parece inegável que o seu desconhecimento das relações intrínsecas existentes entre o edifício e o espaço urbano no qual ele se insere tem contribuído para agravar esse quadro.

No Brasil, os arquitetos ainda projetam seus edifícios de forma isolada, tendo como parâmetro regulatório apenas os lotes onde serão construídos. Tais parâmetros, por sua vez, são derivados de planos diretores idealizados por urbanistas, que, em vez de projetarem a cidade desejável, identificam cenários indesejáveis para que, através de uma legislação urbanística rigorosa, possam impedir que eles se materializem.  Nesse contexto, cria-se um certo antagonismo entre os dois profissionais: o urbanista parece ficar mais preocupado em controlar a arquitetura e o arquiteto mais interessado em burlar as normas urbanísticas. É essencial superar esse confronto e estabelecer uma parceria na produção do ambiente construído. Na minha opinião, o bom urbanismo é aquele que estrutura o espaço urbano de maneira a potencializar a qualidade dos seus edifícios, enquanto que a boa arquitetura é aquela que agrega valor urbano a sua cidade. Portanto, é só através de uma articulação harmoniosa entre essas duas disciplinas que conseguiremos melhorar a qualidade das nossas cidades.

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