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Opinião
A trama da arte

Plínio Palhano
Artista plástico

Publicado em: 06/12/2019 03:00 Atualizado em: 06/12/2019 08:58

Os artistas e a arte moderna tiveram nos seus antecessores impressionistas o apoio às experiências vividas por estes para se libertarem das amarras produzidas por academias limitadas em regras consideradas absolutas. Paul Cézanne foi um deles. Tentou os estudos acadêmicos e era renegado pelos professores, que o achavam péssimo desenhista e não entendiam o porquê de ele estar ali a tentar um caminho na arte. Se existiu um pintor persistente em seus trabalhos para posicionar o seu pensamento, este foi Cézanne.

Émile Zola, seu amigo desde a adolescência, que o tinha como admirável colega de escola, com o tempo, em face das tentativas de Cézanne para ser aceito no Salão de Paris e alçar voos como artista independente, começou a achar que o velho amigo era um teimoso cabeçudo que insistia numas ideias que o escritor considerava fracassadas. Isso, a ponto de Zola incluí-lo como o personagem Claude Lantier, do seu romance “A Obra”, um pintor que se suicidava por compreender que não alcançaria o seu objetivo de “perfeição”. Quando Cézanne descobre esse personagem, rompe com uma amizade consolidada por anos, porém eles permaneceram com laços de admiração mútua até a morte de Zola.

Hoje se diz que o escritor, naquele julgamento sobre o pintor, foi equivocado, e a história da arte prova isso. Depois de Cézanne tudo foi restaurado na pintura. A visão do espaço mudou, e aí entraram outros personagens reais como Picasso, Braque, Matisse... Principalmente todos os cubistas, que entraram numa febre de criação e espalharam as recentes ideias sobre a Europa e América.

Aquele jeito “imperfeito” de Cézanne tocar o pincel na tela; as suas pinceladas paralelas, que dinamizam o espaço abordado; a cor; a luz, que já não era impressionista, porque há tempos ele achou o seu próprio método, eram vistos pelo grande público e alguns críticos, como algo deplorável. Nas primeiras exposições impressionistas, o pintor de Aix-en-Provance era a maior vítima de deboches e dos piores entendimentos. Mas foi graças a essas “imperfeições” julgadas pela visão acadêmica que o pintor legou às gerações futuras um novo estado de compreensão que influenciou muitas outras artes, como a arquitetura, a escultura, a moda, os cenários de teatros, o cinema, enfim, uma percepção nunca vista até então.

Também outros “imperfeitos” entraram na lista de contribuições para a arte: Paul Gauguin e Vincent van Gogh...

Gauguin, como se sabe, era um pacato agente financeiro da bolsa de Paris, tinha uma vida burguesa com a esposa e os filhos e começou a pintar aos domingos com pintores como Camille Pissarro, aprendendo as doses iniciais que o impressionismo tinha para lhe dar. Sem saber ia bebendo do “veneno” que a arte proporciona àqueles que se arvoram a uma amizade mais ardente. Passou de pintor aos domingos à pretensão de deixar o emprego que lhe dava uma segurança financeira mais sólida e uma vida burguesa que a mulher, Mette, apreciava bastante. Daí então sua vida muda radicalmente para o crescente caminhar da consolidação de sua obra. Nunca mais ele foi aquele pacato burguês, a cabeça mudou radicalmente.

Foi nesse amadurecimento que Gauguin se encontrou com Van Gogh, que o considerava um mestre, e o convida para ter uma vida comum de pesquisas pictóricas no Sul da França, em Arles; convivência que foi ao extremo nas discussões sobre arte. Gauguin achava que Van Gogh pintava rápido demais, e o incomodava por isso; o holandês dizia que Gauguin deveria enfrentar a natureza diretamente. Um exigia mais reflexão por parte de Vincent, e este exigia de Gauguin mais sinceridade com a natureza. Gauguin, com sua personalidade, tinha o ímpeto de líder sincero e veemente e era duro na relação com o amigo. Os resultados desse período foram grandes obras que os dois realizaram, inclusive os famosos “Girassóis”, de Van Gogh; os autorretratos; e o próprio retrato do gênio holandês realizado por Gauguin, que, quando o artista olhou disse: “Sou eu, mas louco”. Cézanne era desconfiado com os dois, pensava que Gauguin queria se apropriar de suas ideias, e Van Gogh dizia que era um louco.

Mas, foram esses três, como é sabido, que revolucionaram a arte pós-impressionista. Todos os artistas do início do século 20 foram influenciados por eles. A arte moderna se estabeleceu por causa do pensamento deles e de suas obras. Até mesmo o que chamamos de “arte contemporânea” se deve a esses passos iniciais “imperfeitos”, que legaram a mais sólida visão do nosso tempo. Hoje, com os avanços na ciência e na tecnologia, reverenciamos as obras desses criadores.

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