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Opinião
O poder emblemático das cinzas na arte de Vik Muniz

Antônio Campos
Presidente da Fundação Joaquim Nabuco

Publicado em: 21/11/2019 03:00 Atualizado em: 21/11/2019 08:10

Nova Iorque - Sempre tive um certo encanto pelo poder simbólico e emblemático das cinzas. Por certas coisas que antes eram testemunho de vida, apogeu, glória e beleza. Mas que com o decorrer impiedoso do tempo e das circunstâncias humanas passaram a ser vistas como ruínas. O belo suprassubstancial da beleza pode ser extraído, também, daquilo que virou cinzas.

O nada do pensamento hebraico, o nada que tem sentido, como uma infinidade de sentidos e significados não meramente históricos como as cinzas. Lembre-se de que a Fênix, quando volta, torna-se ainda mais bonita do que um dia já foi.

Vick Muniz, esse paulista de origem pernambucana, radicado nos Estados Unidos, assim como o foi outro esteta também genial, como ele, o paisagista Roberto Burle Marx, sabe, como talvez único de sua geração brasileira de grandes inventores de símbolos, tirar do nada, das cinzas, (esse parente próximo do niilismo), um proveito estético de imensa criatividade.

Inspirado nas cinzas que restaram da secular construção incendiada do Museu Nacional, do Rio de Janeiro, Vik Muniz criou uma obra de arte com belo efeito simbólico obtido, segundo uma distribuição perfeitamente adequada de partes, em relação ao seu projeto almejado.

As cinzas foram a essência de sua obra de arte que está despertando grande interesse e curiosidade dos que frequentam galerias de arte nesta cidade. Essa foi a impressão que me causou, durante horas, a sua exposição numa famosa galeria de arte, que acabo de visitar, em Nova Iorque. Desse artista plástico que tem como "vício" descobrir novas formas de expressão.

Para muitos, seria inimaginável tamanha ousadia extrair do nada uma pluralidade de formas, de fluxos imagéticos, como as que tive o prazer de conferir. Da mesma forma que ele extraiu das nuvens de inverno nessa cidade uma série de surpreendentes fotos, sendo ele, também, um grande fotógrafo do cotidiano.

Minimalismo que se tornou marca do seu trabalho é o que mais se sobressai nesta hora Vikiana, em que a coisa vira outra, cheia de surpresas, desafios, enigmas, elaborando uma ontologia da forma artística. Não quero perder a oportunidade, nestes breves dias em Nova Iorque, de conhecer um dos seus trabalhos mais recentes, os 37 mosaicos que decoram as paredes internas de um trecho do metrô em NY.

Essa obra foi inaugurada em dezembro de 2016, durou aproximadamente três anos para ser concluída e visa retratar os distintos tipos de pessoas que frequentam o metrô.  Vik Muniz, na essência, é um artista plástico que tem a coragem de dividir o que é aparentemente real, em compartimentos estanques, completamente incomensuráveis, ininteligíveis. Aquilo, julgo eu, que o espectador visitante não pode facilmente compreender, pois remete a realidades primariamente incompreensíveis, inabarcáveis.        Além da pintura, ele trabalha com a produção de esculturas e fotografias. Vik preenche igualmente seu tempo com pesquisas e trabalhos midiáticos a serviço do laboratório do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Em seu currículo constam exposições na Flórida, Miami, Montreal, Nova York, México, Canadá, Austrália, e no Rio de Janeiro.

Diante de um Vik, é como estar diante de um Francisco Brennand ou de um João Câmara: é preciso estar preparado para tudo. Não vejo a hora de um dia, que não esteja distante, de Vik Muniz, reconhecido internacionalmente e elogiado pela melhor crítica, voltar às suas origens pernambucanas do Recife, trazendo um pouco da sua arte de vanguarda, aberta, paradoxalmente enigmática e primordial.

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