Diario de Pernambuco
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Opinião
O país dos Palhares

Adhailton Lacet Porto
Juiz de Direito

Publicado em: 07/11/2019 03:00 Atualizado em: 06/11/2019 21:54

O momento que o Brasil está passando me fez lembrar de um grande artífice das letras. Jornalista, dramaturgo e escritor, interpretou como ninguém o homem brasileiro, imortalizando-o num personagem “canalha de olhar rútilo”. Ele mesmo, o Palhares, criação do pernambucano Nelson Rodrigues, também conhecido como o reacionário e a flor de obsessão.
 
Nelson Rodrigues odiava a esquerda, mas era por ela respeitado. Foi Nelson quem concedeu a primeira entrevista das famosas páginas amarelas da revista Veja, no dia 4 de junho de 1969, no auge do regime militar. Indagado sobre o que ele era, exatamente, na política, respondeu: ” Eu sou um anticomunista que se declara anticomunista. Geralmente, o anticomunista diz que não é. Mas eu sou e o confesso”.
 
Mas o por quê de ser anticomunista foi assim esclarecido por Nelson: “Porque a experiência comunista inventou a antipessoa, ou anti-homem. Conhecíamos o canalha, o mentiroso, o vampiro de Düsseldorf. Mas, todos os pulhas de todos os tempos e de todos os idiomas, ainda assim, homens. O comunismo, porém, inventou alguém que não é homem. Para o comunista, o que nós chamamos de dignidade é um preconceito burguês. Para o comunista, o pequeno-burguês é um idiota absoluto justamente porque tem escrúpulos”.
 
Mas, e o Palhares? Ora, “o Palhares, o Canalha, que era tão canalha que quando beijava a cunhada, era no pescoço”. Dizia que todo mundo gosta do Palhares, todo mundo inveja o beijo na cunhada e que o Palhares é feito de todos os brasileiros.
 
Em tempos de delação premiada, fico a imaginar quem é mais Palhares dentre os delatores e delatados, quem seria mais canalha a beijar, não no pescoço, mas sugar impiedosamente os fartos seios dos nossos cofres públicos.

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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