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Opinião
Enfim, quais os rumos da cultura? (parte 1)

Alfredo Bertini
Economista e professor. É autor de Economia da Cultura (Ed. Saraiva, 2008). Foi secretário Nacional do Audiovisual (2016) e de Infraestrutura Cultural (2017/18), do Ministério da Cultura

Publicado em: 16/11/2019 03:00 Atualizado em: 19/11/2019 09:46

Pelo estado de crise que tem passado a Cultura há exato um ano, tenho sido bastante “cobrado” a respeito, justo por uma opinião técnica e política. Acontece que, às vezes, no esforço da racionalidade, só a extensão do silêncio é capaz de promover a pertinência da reflexão, diante da imprevidência do impulso. Assim, por maior que seja a segurança que se tenha sobre temas de afinidade, recolher-se para um melhor entendimento de questões complexas e delicadas, de modo isento e responsável, é a melhor das estratégias.

Só agora, sinto-me imbuído desse propósito de mergulhar no debate. Sim, sem perder de vista a ponderação e daí apontar para os caminhos que possa julgar como os mais apropriados. Dessa forma, espero dar uma resposta mais embasada para os novos desafios da Cultura, sob o ponto de vista politico e técnico.

Dada a amplitude que a crise da Cultura está situada, este texto foi compartimentalizado. Afinal, fez-se necessária uma análise mais acurada, que considere aqui aspectos como conceito, segmentação de mercado, desempenho do setor no periodo destacado, as diferentes variáveis envolvidas e tudo mais que dê substância ao que busquei investigar, particularmente, pela lente econômica, como entendo que deva ser tratada a Cultura. Creio que minha experiência como economista, pesquisador, autor, empreendedor e gestor público, com 25 anos de engajamento nesses distintos ofícios do setor cultural, são credenciais razoáveis para tal.

Assim, ao se tomar o viés econômico como ponto de partida e verdadeira essência desta abordagem, estabeleço aqui um critério próprio e temporal para iniciar minha análise. Esta seção e a próxima formam as duas primeiras partes do texto. Em ambas, apelo pela essência econômica, apenas como meio de apresentação do peso e da extensão da cadeia produtiva da Cultura no Brasil. Tal vetor corresponde à base teórica que dá suporte à tese de que a Cultura pode e deve ser tratada pelo olhar da Ciência Econômica.

Na seção posterior (parte 3), a análise mostra não apenas os aspectos econômicos dos distintos mercados que explicam a produção cultural. Fundamentalmente, faço o registro dos efeitos que decorreram do ambiente politico, justo aquele que se antecipou à mudança de Governo (2018).

Por fim, na última seção (parte 4), a análise se volta ao contexto atual, do acirramento politico entre os agentes público (particularmente, o Governo Federal) e os privados (produtores e artistas), até antes da recente mudança de pasta (Turismo). Pela visão pública, a decisão governamental de não reconhecer o mérito econômico do setor, de sorte que a politica inicial que lhe coube se vinculou a um Ministério com perfil de assistência social (Cidadania). Pela ótica privada, um setor que continua a operar à distância do conceito de empreendedorismo, sem regras de transição para o alcance desse estágio, o que exprime uma postura de forte dependência do Estado.

Em sintese, tem-se um contexto geral de evidente imobilismo, sem uma percepção da dinâmica econômica que está por trás da engrenagem cultural. Isso faz com que os agentes (público e privado) dessa atividade atuem desarticulados, sendo em comum apenas a falta de compromisso com os valores econômicos. O real extrato do que se tem em conta de ambos agentes é um mundo não tão “mágico” em 3 D, aquele que encanta as telas. Aqui, o 3 D espanta, pelo desconhecimento, pela desinformação e pelo desinteresse.

Esclareço melhor esses pontos no próximo texto.

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