Diario de Pernambuco
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Opinião
Dois milhões de pessoas e nenhum atrito

Luzilá Gonçalves Ferreira
Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 05/11/2019 03:00 Atualizado em: 05/11/2019 08:26

O titulo remete a um acontecimento anual, de que esta colunista foi testemunha: o chamado Círio de Nazaré, em Belém do Pará, que acontece nos primeiros dias do mês de outubro e isso há mais de duzentos anos. Impressionante é o termo e não estou exagerando. Como, em cidade brasileira, mais de dois milhões de pessoas ocupam alguns quilômetros de ruas, em silencio ou quase, sem que haja uma discussão, uma briga, um empurrão, uma carteira roubada? Desde cedo, alguns penitentes já ocupam, lentamente, um espaço no centro da rua:  ajoelhados ou se arrastando, se deslocam, enquanto pessoas vão diante deles, colocam grossos pedaços de papelão, desses de embalagem, que vão trocando à medida que avança o penitente.
 
E logo chegam as outras pessoas de Belém mesmo, ou de vários lugares do estado, do Brasil, e trazem modelitos de casas em madeira (neste ano conseguiram construir a casa própria e chegam para agradecer, certamente). Chegam pessoas com tijolos na cabeça, equilibrando livros (escritores que tiveram uma obra publicada? Algum estudante que venceu a prova do Enem?). Nas calçadas ao longo da rua por onde passa lentamente o cortejo, montes de copos e garrafas de água mineral. Penso que deve ser para consumo dos fiéis. Que nada, as garrafas, compradas ou doadas por anônimos, são abertas, e o conteúdo lançado sobre a multidão... pois faz calor e é preciso refrescar os corpos. Assim mesmo, as mãos se erguem acima das cabeças, água fresquinha jorra, para alegria de todos e o cortejo segue. Um pequeno modelo de embarcação lembra um naufrágio no grande rio, alunos de escolas com seus fardamentos respectivos, gente da Marinha, pescadores dentro de pequenas jangadas improvisadas, montadas sobre rodas, empurradas por eles ou por pessoas. Nossa Senhora de Nazaré é pequenina, nos seus 32 centímetros, mas as pessoas olham estarrecidas, muita lágrima, um ar de piedade comovida, mesclada a intensa alegria, gratidão por mais um ano de vida. Bandeiras de associações diversas, união de pescadores, roupas de militares, marinheiros. Vez em quando um santuário com anjinhos de verdade, as crianças muito compenetradas com suas asinhas brancas. Ou um andor com anjo em tamanho de gente adulta, ou um santo de devoção. Ninguém vende nem compra nada, os ambulantes seguem ao lado, discretos, sem anunciar nada, sem interromper de nenhum modo a ação coletiva de fé. Um olhar menos comovido sobre o cortejo e o turista se pergunta até que ponto é a fé que impulsiona as pessoas, mas é certamente mais que isso, uma seriedade comovida e comovente de quem se sente realizar um ato único, de comunhão com o Eterno e que entretanto se repetirá no ano seguinte.
 
Então, uma grande pausa, o cortejo para, chega a berlinda da Nossa Senhora de Nazaré. Cercada de flores vermelhas, pequenina nos seus 32 centímetros. Mas as pessoas choram, fazem o sinal da cruz. Mais uma pausa, a Santa se vai, pouco a pouco a rua fica deserta. Todos irão comemorar, famílias reunidas repetem o mesmo ritual gastronômico, pato no tucupi, maniçoba, peixe filhote, sobremesa de sorvete de cupuaçu, de açaí. O Círio é como o dia de Ação de Graças nos Estados Unidos. E logo as ruas por onde passou o cortejo, são varridas, lavadas em algumas horas, e vida retoma seu curso, na certeza de um futuro feliz sob a proteção de Nossa Senhora.

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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