Diario de Pernambuco
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Opinião
Diante da morte

José Luiz Delgado
Professor de Direito da UFPE

Publicado em: 05/11/2019 03:00 Atualizado em: 05/11/2019 08:26

Ao menos nas vésperas e na sequência do Dia de Finados, deveria o homem pensar na própria morte. Pois, na vida de cada um, quaisquer que hajam sido os sucessos que obteve, só haverá um único momento supremo: aquele, misterioso, terrível, em que se despedirá desta terra, desta luz, dos azuis e dos verdes, e fechará os olhos para sempre. Será apenas uma passagem para outra vida, para cenários ainda mais deslumbrantes, para uma felicidade perfeita? Mesmo os crentes que acreditam nisso, paradoxalmente não anseiam por este momento e, ao invés de querer aproximar-se dele, o querem sempre mais distante... Amam a Deus e querem ir para o céu, sim, mas não querem morrer, embora saibam que, sem morrer, nem irão para o céu nem verão a Deus. Mesmo para os crentes, Deus pode esperar...
 
A verdade é que a morte é o único fato absolutamente certo na vida de qualquer homem. Ela virá. Ela nos espera. Este é o verdadeiro e único encontro marcado do qual ninguém fugirá. Por isto mesmo, deve-se dizer que nela consiste o único problema real da existência do homem. Quaisquer outros – pobreza, dificuldades, crises, injustiças, incompreensões – serão sempre, por mais devastadores que sejam, problemas pequeninos, menores, diante da morte. Ela é a questão central, a rigor a única questão, diante da qual cada um não pode não se posicionar.
 
Evidentemente, na única hora suprema, alguma coisa do ser vivo o abandona, alguma coisa deixa o corpo, se desprende dele, a saber, o ânimo vital, uma vez que o corpo continua existindo, mas agora sem aquela vibração íntima, sem o sopro que o animava, sem vida. Identifique-se isso como se quiser (alma, talvez), mas o fato é que alguma coisa não está mais  no corpo, que agora ainda existe mas não mais vive.
 
O que acontecerá com essa alguma coisa que se desprendeu? Irá para outro lugar, ou simplesmente desaparecerá para sempre? O que nos aguarda? O nada absoluto? A morte terá sido, então, completa e verdadeira aniquilação, de tal sorte que tudo quanto foi feito, todas as lutas, todos os esforços, nada valeu coisa alguma? Teremos sido, assim, totalmente enganados, vítimas de colossal fraude cósmica, a nós tendo sido dadas (o que com nenhum outro ser aconteceu), primeiro, a espantosa capacidade de conhecer, conhecer o mundo, conhecer os outros, conhecer a si mesmo, e, segundo, a fascinante liberdade de definir o próprio destino, para, ao cabo, tudo totalmente desaparecer, aniquilado, pó, puro pó, largado à poeira da terra? Que engodo, que logro, que traição!
 
Muitos já houve que, tendo passado a vida acreditando nesse logro, e não se incomodando com ele, no entanto, na hora decisiva, vendo a proximidade da morte, repensaram os próprios conceitos e clamaram por Deus. Há quem diga, sobretudo os que seguem essas resignações negativistas,  que não são conversões e arrependimentos válidos porque decorrentes do pavor daquela hora suprema. (Não há de ser este o ponto de vista de Deus, que anseia por pretextos para manifestar sua misericórdia...).
 
De qualquer modo, o fato é que muitos ateus e materialistas mudaram de ideia na hora da morte. E leio agora, em Thomas Morus, a observação deliciosamente irônica de que nunca se soube de alguém que, na hora da morte, se arrependesse do próprio catolicismo...

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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